A Escuta Como Gesto Dramatúrgico: Somos Periferia no Sesc Belenzinho
A Escuta Como Gesto Dramatúrgico: SOMOS PERIFERIA
Fotos: Max Di Giosia / Circo Teatro Palombar
Somos Periferia, do Circo Teatro Palombar, transforma circo, música e poesia slam em um manifesto cênico feito por quem vive o território. O Palombar tem um trabalho consolidado de Circo Teatro, mas para este espetáculo entendeu que era o momento de deixar o circo falar por si — o caminho era ouvir aqueles jovens e traduzi-los na linguagem circense.
O Palombar, coletivo nascido e atuante na Cidade Tiradentes, tem no Circo Teatro sua linguagem de origem. Para este espetáculo, o Palombar criou o que poderíamos chamar de Literatura Própria: uma forma própria de dizer a Cidade Tiradentes — com população na casa dos 200 mil moradores e densidade acima de 15 mil pessoas por quilômetro quadrado — e fazer disso matéria de cena.
O espetáculo me deixou com uma questão de forma: quando a cena se organiza como polifonia, o que faz dela um todo? A unidade temática, que no caso está bem clara, é a voz da Cidade Tiradentes, e o espetáculo fala a partir deste ponto de vista sobre a voz da maioria das “quebradas” paulistanas. O diretor Adriano Mauriz não parte de um procedimento incomum — ao contrário: ele opera com um dispositivo bastante comum na linguagem periférica contemporânea, em que a primeira pessoa, o testemunho e a subjetividade se colocam como centro organizador da fala e, a partir daí, produz-se crítica. O que o espetáculo faz é deslocar esse dispositivo para o terreno do Circo Teatro Show, tensionando a forma circense com essa matéria de depoimento e afirmação.
Algumas canções investem no testemunho individual e na interação direta com o público. Esse caminho, coerente com tradições expressivas do território, merece ser dosado com cuidado: quando reiterado em excesso, pode deslocar a atenção do conjunto para o momento individual, interferindo na construção de uma unidade mais ampla. Trata-se de uma questão formal, não de legitimidade — a potência das vozes individuais está preservada; o que se observa é um desafio de composição do todo. E aqui, talvez, apareça um risco específico do nosso tempo: quando o “eu” vira procedimento constante, ele pode escorregar para uma forma de confirmação imediata (aplauso, chamamento, resposta) que, em vez de ampliar o coletivo, o interrompe.
Isso não apaga o valor do que está sendo construído; apenas nomeia uma escolha de forma que pode ganhar ainda mais força com o tempo. Nomeio esse risco justamente porque há potência aqui — e potência merece precisão.
É impossível não perceber como esse modo de testemunho e de adesão — tão forte em muitas periferias — também está presente em linguagens religiosas, sobretudo quando a validação do “eu” depende de um retorno público imediato. Não coloco isso como julgamento de crença ou de cultura: coloco como pergunta de encenação. Porque, quando o espetáculo pede o aplauso como prova de verdade a cada passo, a polifonia corre o risco de virar uma sequência de centros. E a pergunta volta: o que costura o conjunto?
Nesse ponto, a discussão toca a colonização do imaginário, como José Saramago descreve quando o poder deixa de ocupar territórios físicos para ocupar a consciência. Se existe um perigo aí, ele é sutil: a periferia pode subir ao palco com suas ferramentas próprias — e, ainda assim, ser empurrada para um modelo de fala em que o indivíduo precisa se afirmar sem cessar para existir, como se o coletivo fosse sempre um efeito secundário.
Ao mesmo tempo, há algo profundamente político no gesto maior do espetáculo: antes de exigir transformação, escolher a escuta; antes de moldar, compreender de onde vem cada gesto, cada palavra, cada silêncio. Para jovens acostumados a ter suas referências culturais invisibilizadas, exotizadas ou folclorizadas, o simples ato de terem sua expressão legitimada como matéria cênica já é, em si, um acontecimento.
Além disso, o espetáculo tem encontrado casa cheia onde se apresenta. Esse dado não é detalhe: indica que ele está em sintonia com um gosto popular — e que essa forma, com todas as tensões que carrega, consegue produzir adesão real. Em tempos em que tanta cena fala “sobre” o povo sem conseguir falar com o povo, isso é mais um mérito.
O que pode ser mais relevante para um grupo de artistas em formação do que ter sua subjetividade respeitada? Que não sejam colonizados por uma expectativa externa de obra “redonda”, “fechada”, “bem costurada”? A periferia sobe ao palco não como tema a ser representado, mas como linguagem viva, como poética própria. E é justamente por isso que a crítica precisa existir: porque, se a linguagem já está viva, o próximo desafio é fazê-la viver como conjunto — transformar testemunho em coro, sem apagar singularidades, mas também sem deixar que a soma de “eus” substitua a construção de um “nós”.
FICHA TÉCNICA (conforme release)
- Coordenação geral e direção: Adriano Mauriz
- Elenco: Anna Karolina; Giuseppe Farina; Guilherme Silveira Torres; Henrique Augusto; Henrique Nobre; Jessica Nascimento; Leonardo Galdino; Marcelo Inayá; Paulo Wesley; Vinicius Mauricio
- Artistas convidados: André Canário; Jé Versátil
- Cenografia, projeção e animação: Coletivo Coletores
- Produção e adereços: Circo Teatro Palombar
- Técnico de iluminação: João Alves
- Técnico de projeção: Coletivo Coletores
- Técnico de som: JP Hecht
- Figurino: Carlos Alberto Gardin
- Direção de movimento: Ronaldo Aguiar
- Orientação acrobática: Mano a Mana
- Assessoria de imprensa: Luciana Gandelini de Souza
- Arranjos e orientação musical: Tete Purezempla
- Composição musical: Tita Reis
- Orientação vocal: Wilian Guedes
SERVIÇO
- Espetáculo: Somos Periferia
- Com: Circo Teatro Palombar
- Quando: 06 a 22 de fevereiro de 2026
- Sextas e sábados: 20h
- Domingos: 17h
- Dias 14, 15, 16 e 17 (sáb, dom, seg e ter): 17h
- Ingressos: R$ 50,00 (inteira) | R$ 25,00 (meia-entrada) | R$ 15,00 (Credencial Plena)
- Local: Sesc Belenzinho — Sala de Espetáculos I (120 lugares)
- Endereço: Rua Padre Adelino, 1000 — Belenzinho — São Paulo (SP)
- Duração: 60 min
- Classificação: Livre
- Transporte público: Metrô Belém (550m) | Estação Tatuapé (1400m)
- Informações à imprensa:
- Assessoria de imprensa: Luciana Gandelini — WhatsApp 11 99568-8773 — luciana.gandelini@gmail.com
- Sesc Belenzinho: Priscila Dias — Tel. (11) 2076-9762 — imprensa.belenzinho@sescsp.org.br


