Teatro

Entre irmãos

Entre Irmãos — cena do espetáculo
Foto: Heloísa Bortz

Crítica · Teatro

O pai morre duas vezes

Em Entre Irmãos, Otávio Martins, Fernando Pavão e Marcos Damigo transformam trinta anos de ofício numa celebração sem autocomplacência

Antes de qualquer palavra sobre o conflito entre os dois irmãos, antes de qualquer linha do texto de Otávio Martins ser dita, o espetáculo já tomou uma decisão formal que determina tudo o que vem depois. O filho mais velho entra pela plateia. Cumprimenta. Agradece. Diz, a alguns, que o pai gostava muito de você. O teatro vira velório, e o velório vira restaurante — porque os presentes são, em sua quase totalidade, clientes. Não há família. Não há amigos de verdade. A agenda pessoal do pai estava vazia faz tempo; os que realmente importavam já tinham partido, e ninguém ocupou o lugar deles.

Esse contrato instalado na entrada não se quebra mais. Quando o irmão mais novo chega e o confronto começa, quando as acusações se acumulam e a revelação do passado reorganiza o ponto de vista de ambos, o público já está dentro — já é cliente, já é parte da pseudocomunidade que o pai cultivou durante décadas. A exposição íntima dos dois irmãos acontece diante de exatamente as pessoas erradas. O pai construiu a vida inteira para que ninguém visse além da superfície. Os filhos, ao se confrontarem, desfazem esse trabalho em setenta minutos, e nós assistimos sem ter sido convidados. O pai morre duas vezes: o corpo, e a máscara.

Entre Irmãos — Fernando Pavão e Otávio Martins em cena
Foto: Heloísa Bortz

Quanto mais os irmãos se expõem, mais contradizem o protocolo social que o pai construiu a vida inteira para preservar. A revelação do passado acontece diante dos clientes.

O pai que a dramaturgia reconstrói por fragmentos é uma figura precisa e desoladora. Decorava piadas de humoristas para ser agradável sem precisar entrar em assunto nenhum. Todo ano se fantasiava de Papai Noel — e todos fingiam não saber que era ele, porque esse era o acordo taciturno, a performance que todos esperavam e ninguém queria interromper. O filho mais velho, no velório, agradece cada cliente como se seu pai se importasse com aquela pessoa de verdade. E ao fazer isso, sem perceber, cumpre o mesmo papel que o pai cumpriu a vida toda: sustenta a ficção, garante que o salão continue funcionando, mesmo que o dono já esteja no caixão.

É aí que o espetáculo encontra sua camada mais densa. O irmão mais velho não herdou só o restaurante. Herdou o modo de existir. Tornou-se uma réplica do pai porque era a única engenharia de sustentação disponível: reproduzir o modelo para não ruir com ele. Até o time pelo qual torce — a Juventus, clube de bairro, de freguesia — diz de quem é esse homem: alguém que precisa demonstrar paixão pelo futebol, como se espera de um homem em seu extrato social, mas que jamais escolheria um time que pudesse criar algum atrito com alguém.

Entre Irmãos — cena
Foto: Heloísa Bortz

O irmão mais novo escapou cedo e foi viver como fotojornalista — profissão que o texto elabora com precisão: alguém que enquadra a cena de guerra, não pode intervir, e parte carregando as imagens. Guardar e seguir em frente. A simetria entre as duas trajetórias não é decorativa; ela é a estrutura do espetáculo. A dramaturgia se inscreve na tradição do realismo psicológico e dialógico americano — com raízes em Miller e Williams —, em que a confrontação é o motor da revelação do caráter.

Entre Irmãos — cena
Foto: Heloísa Bortz

Escolha que, em mãos menos hábeis, poderia resvalar para o previsível; aqui se justifica plenamente. A revelação que reorganiza o ponto de vista de ambos os irmãos chega na medida certa — não como artifício que produz efeito à revelia do desenvolvimento dramático, mas como algo que a vida impõe sem pedir licença. O passado simplesmente aparece, e eles precisam lidar com ele da mesma forma que lidaram com tudo: sem ter escolhido o momento.

Há uma explicação técnica para a qualidade específica do que se vê em cena, e ela não está na dramaturgia nem na encenação isoladamente — está nos trinta anos que unem Otávio Martins, Fernando Pavão e Marcos Damigo. Três décadas de ofício e amizade produzem um nível de confiança que dispensa negociação visível: a direção não precisa aparecer como intervenção porque já está incorporada; o jogo entre os dois atores não precisa se demonstrar porque já existe antes de qualquer ensaio.

Fernando Pavão e Otávio Martins sustentam a cena com um jogo de escuta que raras vezes se vê com essa qualidade. As pausas não são ornamento — são parte da informação dramática. O espetáculo também sabe quando frear. Nos momentos em que a emoção ameaça cruzar a fronteira do melodrama, algo os devolve à circunstância concreta: há pessoas a cumprimentar, o velório continua. Duas lâmpadas fluorescentes paralelas, permanentemente acesas, presidem o espaço. A luz fria e constante impede o intimismo fácil e mantém presente, de forma silenciosa, a figura do pai — que está morto, mas continua organizando tudo ao redor.

Entre Irmãos não absolve nenhum dos dois irmãos, não condena nenhum dos dois. Apenas os mostra, com rigor e sem piedade excessiva, como nos tornamos o que somos quando tentamos dar o melhor de nós dentro dos limites que não escolhemos. E nos lembra, incidentalmente, que estamos todos sentados no velório como clientes.

Ficha Técnica
Texto
Otávio Martins
Direção
Marcos Damigo
Elenco
Fernando Pavão, Otávio Martins
Trilha Sonora
Ricardo Severo
Iluminação
Beto De Faria
Produção
Patrícia Scótolo, Flávia Moreira
Fotografia
Heloísa Bortz
Comunicação
VN Assessoria

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