Felicidade: leveza como saber de ofício
Confesso uma resistência pessoal às comédias. Não por princípio, mas por experiência: muitas vezes o humor se resolve em facilidades, em cumplicidades rápidas que pouco permanecem depois do riso. Por isso, assistir a Felicidade, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, foi uma surpresa — e uma surpresa boa. Não apenas porque o espetáculo funciona, mas porque encontra um tipo de humor raro hoje: aquele que nasce do domínio do ofício, da escuta da cena e de uma relação inteligente com a tradição.
Há, em Felicidade, um riso que não é automático nem decorativo. Ele surge do ritmo preciso dos diálogos, da variação consciente dos registros de atuação e da capacidade de transitar entre momentos mais abertamente cômicos e outros de maior densidade dramática, sem que um anule o outro. Essa fluidez — que exige técnica, atenção e clareza de intenção — é um dos grandes acertos do espetáculo.

Para compreender melhor essa operação, é útil situar a tradição com a qual a peça dialoga. O que se consolidou historicamente no Brasil como teatro de revista não é um gênero simples, mas uma linhagem dramatúrgica híbrida. Sua estrutura formal vem do vaudeville francês: a composição em quadros independentes, a lógica episódica que dispensa a unidade aristotélica de ação, os números musicais integrados à dramaturgia, a presença de um fio condutor e a ideia de espetáculo de variedades. Trata-se de uma forma que não exige do espectador o acompanhamento linear de uma fábula; cada quadro pode funcionar como uma pequena peça autônoma, permitindo uma fruição imediata e fragmentada.
Já o material dramatúrgico — os conflitos, os caracteres, a linguagem cênica — enraíza-se na comédia de costumes brasileira, tal como formulada por Martins Pena e Arthur de Azevedo. É daí que vêm os tipos sociais como personagens, a crítica direta às instituições, o uso da oralidade urbana como matéria teatral, o deboche como motor cômico e a observação satírica do cotidiano. O teatro de revista brasileiro pode ser entendido, assim, como a comédia de costumes estruturada dentro da forma episódica e musical do vaudeville.
O que permanece vivo e potente dessa tradição é a capacidade dramatúrgica de construir uma comédia leve e inteligente a partir da tipificação, do exagero consciente dos caracteres e da agilidade estrutural. É possível atualizar essa linhagem privilegiando o texto, o ritmo, a caracterização dos personagens e o comentário social, mantendo o espírito do revista — sua leveza, sua mordacidade e sua relação direta com o presente — sem recorrer ao luxo visual que marcou determinados momentos históricos do gênero.
É justamente nesse ponto que Felicidade se ancora. O espetáculo carrega essa procedência formal — essa linhagem viva — sem jamais parecer arqueológico. Ao contrário, opera a partir dela com clareza contemporânea, filtrando o que há de mais potente nessa tradição para construir uma cena afinada com o tempo presente. Não há citação nem nostalgia: há atualização.
Essa atualização não acontece por acaso. A dramaturgia de Caco Galhardo carrega um saber específico, construído ao longo de muitos anos lidando com soluções rápidas, precisas e inteligentes no campo dos quadrinhos — onde, em poucos quadros, é preciso instaurar situação, conflito, comentário e desfecho. Esse domínio da síntese, do ritmo e do corte se transfere com naturalidade para a cena teatral. Ao operar a partir dessa experiência, o autor insere sua dramaturgia numa tradição que sempre valorizou a inteligência do tempo curto, da forma ágil e da comunicação direta com o público — agora filtrada por uma sensibilidade contemporânea. Sua escrita não busca o brilho ostensivo, mas a eficácia cênica — e é justamente aí que encontra força.

Não é casual que a origem do espetáculo esteja numa canção de Tom Zé. Vai (Menina Amanhã de Manhã) traz uma ideia de felicidade súbita que nunca é pura celebração. Há ali sempre um deslocamento, uma estranheza, um convite à escuta do que não se explica inteiramente. A dramaturgia de Felicidade soube transpor essa sutileza para a cena, evitando tanto a alegoria óbvia quanto a psicologização excessiva. A felicidade que irrompe na protagonista não é tratada como solução, mas como problema dramatúrgico: algo que desorganiza, desloca e produz atrito com o mundo ao redor.
A encenação de Dani Angelotti compreende esse princípio e constrói um espetáculo em que as linguagens se articulam com precisão. A música não funciona como comentário externo, mas como estrutura interna da cena. A presença de Zeca Baleiro — responsável pela direção musical e também em cena — reforça essa integração. Sua atuação não se impõe como protagonismo deslocado, mas como elemento organizador do ritmo e da atmosfera do espetáculo, em diálogo constante com o elenco e com a percussionista Layla Silva. Música, dramaturgia e atuação operam como partes de uma mesma engrenagem.
Há, em Felicidade, um evidente saber de ofício compartilhado. Dramaturgo, diretora, diretor musical e elenco demonstram conhecer profundamente os materiais com que trabalham: o tempo do riso, o risco do exagero, o limite entre leveza e banalidade, a escuta do público. Nada parece indeciso ou gratuito. Cada escolha revela clareza sobre o que se quer dizer e, sobretudo, sobre como dizer.
O resultado é um espetáculo leve no melhor sentido da palavra — porque não é tolo, não é ingênuo, não subestima a inteligência do espectador. Felicidade reafirma uma das forças mais interessantes da tradição brasileira: a capacidade de tratar questões complexas com aparente simplicidade, humor afinado e rigor formal. Ao fazê-lo, não apenas diverte, mas recoloca em circulação uma forma de pensar a cena que alia prazer, inteligência e comentário crítico — algo cada vez mais raro e, por isso mesmo, tão bem-vindo.
Ficha técnica
Texto: Caco Galhardo. Direção Geral: Dani Angelotti. Direção Musical e participação ao vivo: Zeca Baleiro. Com: Martha Nowill, Eduardo Estrela, Luisa Micheletti, Nilton Bicudo, Willians Mezzacapa. Participação musical: Layla Silva. Diretor Assistente: André Acioli. Assistente de direção: Raphael Gama. Figurino: Kleber Montanheiro. Identidade visual: Caco Galhardo. Designer de Luz: Gabriele Souza. Designer de Som: João Baracho. Direção de Movimento e coreografia: Zuba Janaina. Preparação Vocal: Ana Luiza. Designer: Luciano Angelotti e Laerte Késsimos. Fotos: Edson Kumasaka. Maquiagem estúdio: Louise Helène. Social Media: Isabella Pacetti. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Direção de Produção: Selma Morente. Coordenação de Comunicação: Célia Forte. Produção Executiva: Camila Scheffer e Egberto Simões. Idealização: Dani Angelotti e Martha Nowill. Realização: Cubo Produções. Uma produção Morente Forte Produções Teatrais.


