A culpa é dos javalis: rindo do colapso das masculinidades em espera
Quatro homens num ponto de ônibus no meio do nada, uma espera que não anda e um riso que não alivia: desloca. A Motosserra Perfumada entrega comédia crítica de alta voltagem — teatro na melhor acepção da palavra.

Trata-se de uma comédia. Isso é dito na apresentação e reafirmado pelas personagens ao longo do espetáculo. Comigo, esse pacto funciona de maneira especialmente fácil — o que não é comum. O riso vem rápido, mas não se trata de gargalhada solta; é riso de reconhecimento. Aqueles homens são conhecidos. Já passaram por nós, sentaram ao nosso lado em bares, falaram alto demais em mesas vizinhas, opinaram com convicção sobre tudo.
Quatro homens — o músico, o playboy, o escritor e o homem negro — estão num ponto de ônibus no meio do nada, depois de uma festa de casamento que terminou mal. O ônibus não chega. Eles esperam. Um quinto homem, o dono da propriedade onde aconteceu a festa, surge para confrontá-los a partir do desaparecimento de Betty Braite. Ele não espera: invade a espera. E, ao fazê-lo, expõe também seu tipo social e sua própria forma de masculinidade.

A situação é simples, quase banal. E justamente por isso funciona. Nada acontece — e tudo começa a acontecer. A espera não é metáfora abstrata nem denúncia social direta; é tempo morto, suspensão forçada. Um intervalo em que não há mais para onde ir nem o que fazer, além de falar. E, ao falar, esses homens passam a expor aquilo que normalmente permanece protegido pela circulação da cidade: suas máscaras.
A Culpa é dos Javalis, da companhia A Motosserra Perfumada, parte dessa situação mínima para montar uma comédia afiada sobre o colapso das masculinidades contemporâneas. O espetáculo entretém, é engraçado, ágil, sustentado por um elenco muito preciso. Mas o riso que provoca não resolve nada. Ele desloca. E é nesse deslocamento que a peça começa a operar politicamente.
O dispositivo é mínimo: espera, confinamento, repetição. A referência a Esperando Godot é inevitável, mas também insuficiente. Se em Beckett a espera é metafísica e o esvaziamento se dá pela falha da linguagem, em A Culpa é dos Javalis a espera é material, social e política. Não se trata do vazio do mundo, mas do tempo morto que obriga sujeitos a performar aquilo que já não se sustenta — e é justamente essa materialidade da espera que a torna política.
O confinamento forçado cria um campo de batalha verbal entre homens, inscrevendo o espetáculo numa linhagem clara de comédias críticas que usam o tempo suspenso como instrumento de revelação. Há algo dos silêncios ameaçadores de Harold Pinter, onde a fala é arma e o espaço é disputa (O Guardador, O Amante). Há a verborragia agressiva de David Mamet, em que masculinidades se constroem pelo atropelo do outro (Glengarry Glen Ross). E há, no horizonte ético, o teatro que enfrenta a violência de gênero sem oferecer sínteses reconfortantes — de Sarah Kane a Caryl Churchill — não como modelo formal, mas como recusa do moralismo fácil.
É importante sublinhar que se trata de uma dramaturgia paulistana, escrita a partir da cidade e para a cidade. As referências espaciais — Oscar Freire, Ferraz de Vasconcelos, Carapicuíba — não funcionam como piada local nem como citação ilustrativa: são coordenadas reais de um imaginário urbano compartilhado. O público reconhece imediatamente o que está em jogo quando um personagem diz que “a conversa ainda não chegou na Oscar Freire”, ou quando se menciona a travessia de uma ponta a outra da metrópole. O sotaque, o ritmo da fala, o tipo de humor e os códigos de convivência são inequivocamente paulistanos.
Nesse sentido, Biagio Pecorelli se insere numa tradição de dramaturgos paulistas que exercem sua função fabuladora: transformar a experiência bruta da cidade em estrutura de sentido. Não para ordenar a realidade de forma pacificadora, mas para torná-la legível, disputável, humana. Ao fabular a cidade, esses autores não apenas permitem que seus habitantes compreendam a própria realidade específica, como também resistem à dominação cultural e afirmam sua dignidade simbólica. Negar-lhes a autoria de suas próprias histórias seria negar-lhes a própria humanidade — pois é pela transfiguração literária da experiência urbana que o sujeito se reconhece, se humaniza e conquista o direito de não ser silenciado no quadro da cultura universal.
É importante dizer com todas as letras: A Culpa é dos Javalis entretém. É engraçada. O público ri — não por constrangimento, mas porque a comédia é precisa. O elenco é ótimo, afinado, com timing rigoroso. Não há barriga. A peça anda, pulsa, mantém tensão. É teatro vivo, feito para a cena, sustentado no trabalho dos atores e na escuta coletiva. Isso não é detalhe secundário: a eficácia cênica é parte da posição política do espetáculo.

A matriz cinematográfica — Pulp Fiction, Porcos e Diamantes, Um Peixe Chamado Wanda — é assumida sem pudor. A citação direta da dança de John Travolta e Uma Thurman não é piada interna nem piscadela cúmplice; é operação dramatúrgica. O espetáculo se apropria do repertório pop para acelerar o ritmo, criar reconhecimento imediato e, em seguida, esvaziar essas poses. Trata-se de um teatro que pensa com o cinema porque seus sujeitos são cinema — homens que performam identidades midiáticas já gastas, citando Tarantino enquanto colapsam.
Os quatro homens que esperam são tipos urbanos facilmente reconhecíveis na Pauliceia: o músico verborrágico e contraditório, o playboy, o escritor underground, o homem negro atravessado por desejos reprimidos. Não são personagens psicológicos densos, nem pretendem ser. São figuras sociais, personas contemporâneas cristalizadas. Cada um tenta se impor — e falha. A comédia nasce desse fracasso reiterado. Já o dono da propriedade, ao confrontar os quatro, faz emergir outra masculinidade: a da posse, do controle, da tentativa de recolocar autoridade em cena no exato momento em que ela vacila.
Trata-se de um texto moderno, profundamente conectado à São Paulo contemporânea, mas isso não o conduz a experimentalismos que se afastam da teatralidade. Ao contrário: A Culpa é dos Javalis afirma o teatro na melhor acepção da palavra. Não abdica da cena, do ator, do conflito nem da escuta. A modernidade aqui não se dá pela recusa da forma teatral, mas pelo modo como ela é tensionada a partir de dentro, sem perder legibilidade nem potência comunicativa.
O grupo opera no território da comédia urbana de costumes, em chave contemporânea: texto, ator e situação permanecem centrais. O músico não declama manifestos — atropela a conversa com referências culturais desconexas. O playboy não simboliza a elite — performa superioridade enquanto bebe cerveja vagabunda. A comicidade nasce do atrito direto entre pose e precariedade. Nada é relaxado, nada é bobo, nada é gratuito. O humor é afiado porque sabe exatamente onde cortar.

O espaço do ponto de ônibus é decisivo. Não estamos nem na cidade nem no campo, mas num não-lugar de transição. São homens urbanos, deslocados para uma área rural onde aguardam retorno. O ônibus que não chega não simboliza precarização do transporte — é pretexto dramatúrgico puro. Importa menos o motivo da espera do que o que acontece quando nada acontece. O passado — a festa — é irrecuperável. O futuro — a volta — não se realiza. Resta o presente suspenso, onde as máscaras se desfazem.
O riso que a peça provoca é significativo. Não é gargalhada escancarada nem humor de identificação confortável. É um riso nervoso, de reconhecimento incômodo. O público ri porque reconhece — e reconhece algo que preferiria não reconhecer. Há aqui um parentesco claro com o riso brechtiano do estranhamento, mas sem didatismo, sem cartilha. O espetáculo confia na inteligência do público e no desconforto como motor crítico.
No centro da trama está Betty Braite — nome que joga com bright, gíria para cocaína. Feminista radical, traficante de prazeres ilícitos, figura ausente-presente que organiza toda a narrativa. Betty opera como figura desencadeadora da ação: não se fixa como personagem tradicional, mas desloca permanentemente o campo de forças da cena. Sua presença é menos física do que estrutural; ela age pelo efeito que produz nos homens que falam dela, que a temem, que a desejam e que tentam explicá-la.
A violência associada a ela não é encenada, apenas narrada. Essa escolha não é pudorosa nem covarde: é política. Ao recusar a imagem, a peça desloca o foco para o efeito simbólico da inversão. A questão não é o choque do ato, mas o que acontece quando a lógica da violência muda de mãos. A dramaturgia se recusa — corretamente — a decidir entre justiça, vingança ou reprodução do trauma, porque sabe que qualquer síntese seria ideológica no pior sentido.
A Culpa é dos Javalis não propõe saída nem conciliação. Não oferece pedagogia nem redenção. Sua força está em manter o impasse em cena — e fazer disso um motor de comédia. A espera, o não-lugar, o passado irrecuperável e o futuro que não chega criam uma arquitetura simples e eficaz para expor homens sem chão, presos a performances ocas, tentando sustentar discursos que já não encontram respaldo no mundo.
Ao recusar tanto o moralismo quanto o relativismo confortável, o espetáculo afirma uma posição política clara: não é possível falar de crise das masculinidades sem enfrentar o desconforto que ela produz — inclusive no riso. O humor aqui não absolve, não suaviza, não transforma violência em graça inofensiva. Ele corta. É ácido, voraz, preciso.
Num momento em que parte do teatro parece hesitar entre o didatismo e a diluição pós-dramática, A Motosserra Perfumada aposta em outra coisa: comédia crítica de alta voltagem, ancorada no ator, no texto e no conflito. Um teatro que sabe entreter sem se desculpar por pensar; que sabe fazer rir sem abrir mão do incômodo.
No meio do nada, quatro homens esperam um ônibus que não vem — e um quinto chega para confrontá-los, tentando impor ordem sobre o que já desmoronou. O que se expõe, no lugar do ônibus, é um vazio estrutural. E o riso — nervoso, atravessado — é o som desse desmoronamento em curso.
🎭 Serviço
Datas: 23 de janeiro a 8 de fevereiro
Horários: sextas e sábados às 21h | domingos às 20h
Local: Rua Francisca Miquelina, 155 – Cemitério de Automóveis, São Paulo
Duração: 70 minutos
Ingressos: Inteira R$ 50 | Meia R$ 25
🛠️ Ficha Técnica
Texto e Direção: Biagio Pecorelli (@biagiopecorelli)
Elenco: Camila Ríos (@camilariosart), Bernardo Mendes (@bernardolimamendes), Victor Moretti (@vmoretti_), Carcarah (@carcarah), Afonso Bispo Jr (@negocatra_), Ernani Sanchez (@ernanisanchez)
Assistente de Direção: Fernanda Comenda (@fernandacomenda)
Preparação de Elenco: Brunna Martins (@brunna.umartins)
Coreografia: Marcio Filho (@movemarciofilho)
Cenografia: Rafael Bicudo (@rafael_bicudo)
Figurino: Mariana Cypriano (@mademozl)
Desenho de Som: Dugg Mont (@dugg_mont)
Desenho de Luz: Biagio Pecorelli (@biagiopecorelli)
Fotografia: Jessica Ohelerick (@jessoehlerick)
Fotos: Léo Pinheiro (@c41estudio)
Arte: Bruno Caetano (@bcaetano_)
Trilha Sonora Original: Ernani Sanchez (@ernanisanchez), com participação de Jonnata Doll (@jonnatadoll) e Edson Van Gogh (@vangoghedson)
Apoio: Corpo Rastreado (@corporastreado), Cemitério de Automóveis (@cemiteriodeautomoveis), Josefa Restaurante (@josefanoparaiso)



Um comentário
Beth Brait Alvim
Bela resenha. Curiosa.Quero degustar. Viva o teatro brasileiro! Viva ventoforte, oficina, conteiner, cemitério de automóveis e todos os teatros verve!