Teatro

CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente

A Doce Arquitetura do Delírio

Quando assisto a um espetáculo que trata sobre o que, para meus olhos, aparenta ser sofrimento psíquico, logo penso que não tenho formação em psicologia, nem sou psicoterapeuta; então não me cabe dar nome clínico ao que vejo. Escrevo sobre teatro porque vivo nessas águas há anos. No baque das ondas contra o meu batel, o marinheiro se faz. Não há nada de preciso nelas — e, mesmo assim, sigo: para mim, é sempre preciso.

Posto isso, escrevo sobre o espetáculo CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente, texto escrito pela dramaturga estadunidense Jane Wagner (The Search for Signs of Intelligent Life in the Universe, 1985). Tentei me concentrar em como a dramaturgia e a encenação batiam em mim, sem querer teorizar. Neste momento, não pude me esquecer de que, há alguns anos, no velório de um rapaz que, depois de muitos anos doente, partiu, eu falava com a mãe dele — que oscilava entre o choro e uma calma impressionante. De repente, ela me disse que, numa quarta-feira, em uma praça perto de sua casa, havia pousado um disco voador; desceram uma escada para ela subir, ela subiu e falou com eles. Disse que tinha de cuidar do filho, senão iria com eles. Ela disse isso com candura; eu não pensei se ela tinha algum traço de esquizofrenia ou algo do gênero. Se posso nomear o que aconteceu, posso dizer que, naquele caso, a “loucura” foi uma doce arquitetura — que desenhou uma casa onde uma mãe, vendo boa parte do seu mundo desabar, pudesse se abrigar. Volto a essa lembrança para não confundir delírio com caricatura.

Ao assistir a um espetáculo, não cabe a mim palpitar sobre como deveria ter sido resolvida a cena; uma peça é feita por questões objetivas e subjetivas que, ao assistir ao espetáculo, não vêm ao caso. Devo pensar o que aquele espetáculo diz às plateias atuais desta cidade, no contexto social e histórico que vivemos.

Pensando dessa forma, digo que esta peça ganhou força com o passar dos anos. Foi escrita em 1985, período pré-internet, pré-smartphones e pré-redes sociais. Na montagem de Gerald Thomas, 1985 não aparece como “época”: aparece como material em atrito com o agora — há intervenções que parecem preencher, à força, as lacunas que o tempo abriu. Esses elementos só amplificam as questões e os motivos pelos quais a personagem buscou — ou foi conduzida a — aquela situação. Hoje, a distância entre pessoa e personagem diminuiu: a vida pública virou vitrine, e vínculo muitas vezes vira contagem. Quando a personagem confunde “seguidores” com amizade, a piada acerta um nervo: é riso, mas é também diagnóstico social. Isso muda a temperatura da peça — e muda também o risco do riso. Quando ela questiona quem é mais doente — quem acumula o lixo ou quem gera o lixo — isso fica nítido. Porque, agora, “lixo” já não é só sujeira: é excesso, é crise, é aquilo que o mundo produz e não sabe mais onde pôr — e que volta como sintoma. E é nesse entulho — material e simbólico — que a pergunta da peça ganha um brilho incômodo.

Cena de CHOQUE! com painel pop-art e elementos de consumo/lixo.
CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente — Foto © Dalton Valério

Logo no início, uma voz em off ocupa o lugar do alienígena — e o espetáculo nos faz ouvir com ela. Para a personagem, isso é nítido, real. As escadas que permanecem em cena, do chão até os limites da visão, reforçam esse vislumbre: há sempre um caminho armado para fora do mundo, mas ele termina onde o olho já não alcança. Em alguns momentos, entram roupas gigantes; pela rigidez e pelo espaço reservado ao corpo, são quase armaduras — trajes de outras vidas que ela teria de sustentar: papéis antigos, pesos de cena social, exigências que hoje viraram matéria, volume, ameaça. Dentro desse desenho cênico, o trabalho de atuação encontra o seu trilho.

Plano geral com escadas e lixo em cena, sob luz azul.
CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente — Foto © Dalton Valério

E é aí que a encenação trabalha: a atriz muda de personagem sem que a cena mude de lugar — às vezes basta um ajuste de eixo do corpo, um outro desenho de voz. O espetáculo não “explica” a transformação; ele a revela pela atuação, como quem gira o caleidoscópio e vê a nova figura. A plateia ri; o riso vem e, em seguida, encontra um freio — como se o nó na garganta já estivesse armado antes da gargalhada.

É assim que vejo as personagens vividas por Danielle: Trudy — a catadora, ex-publicitária — é quem fala dessa comunicação com alienígenas e dessa sensação de estar sob observação. A partir dela, outras mulheres entram em cena (Lyn, Marge, Kate…), não porque “comuniquem” com os extraterrestres, mas porque são vidas que Trudy apresenta — ou convoca — como exemplos do humano. Danielle usa adereços de figurino que diferenciam uma personagem de outra; isso reforça a dramaturgia e faz surgir diferentes facetas de uma mesma mulher — talvez criações, talvez lembranças de outros momentos da vida — conduzidas pela sua vontade. Em algum momento, sua personalidade vira um caleidoscópio; conforme a luz e o instante, vemos outros pedaços do vidro — outras cores. Essas nuances são muito bem construídas pela encenação e pela atriz. As quatro escadas conduzem quatro possibilidades de personagem que compõem a cena. Estamos num lixão, mas os elementos oníricos parecem imagens de outra época dessas mulheres — restos de vida, memória e delírio.

Atriz diante de painel azul com colagem/rosto e post-its, em cenário de lixão.
CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente — Foto © Dalton Valério

Em certo momento, uma das personagens usa a parte da frente de um vestido rendado preto e se senta no chão. A imagem me remeteu a Dias Felizes, de Beckett. Não só pela questão existencialista — que aqui é clara — mas por um clima beckettiano que paira sobre a cena em alguns instantes. Ainda assim, a dramaturgia não se apoia nisso: tem linha própria, humor próprio, e um modo muito particular de dar conta do mundo contemporâneo.

Close da atriz em cena, com escada ao fundo.
CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente — Foto © Dalton Valério

Um ponto que demonstra bem a intenção do espetáculo — e que a encenação torna nítido — é a metáfora do nó na garganta. Por que os alienígenas querem saber o que é nó na garganta? Porque é a fronteira do indizível. É a represa, é o ponto exato onde a emoção é grande demais para ser contida no peito, mas a saída (a fala ou o choro) ainda está bloqueada pela razão, pelo medo ou pela convenção social. Também pode ser o filtro do ser: o nó surge quando a realidade “baqueia” contra nós. É o impacto da vida tentando ser processado pela garganta, que é o canal por onde expressamos quem somos. Ele surge no hiato entre o sentir e o agir.

Como a personagem não extravasa, ela se mantém multifacetada; o aperto não afrouxa. Elas sabem que há algo entalado, mas a tensão segue armada. Esse bloqueio é, essencialmente, uma pausa forçada. A personagem sabe que desatar os muitos nós que carrega talvez lhe tirasse alguma agonia. Mas isso não ocorre; então, em vez de desatar, ela explica aos alienígenas como o nó se forma — tentando resolver pelo avesso.

Talvez seja só uma questão de gosto de escuta, mas, naquele espaço de acústica tão generosa, notei que o microfone às vezes produz um descompasso: a atriz está perto, no corredor, e a voz parece vir de outro lugar. Confesso que tenho saudades dos espetáculos sem microfone sem fio. Mas o que permanece é outra coisa: a garganta como represa, a palavra como imagem, o delírio como abrigo. E, no meio do lixo que volta como sintoma, ainda há sinais — frágeis, humanos — de vida inteligente.

Ficha técnica

Texto de Jane Wagner, com intervenções de Gerald Thomas
Atriz: Danielle Winits
Direção: Gerald Thomas
Tradução: Alexandre Tenório
Iluminação: Wagner Pinto
Figurinos: João Pimenta
Cenografia: Fernando Passetti
Pintura em tela: Rinaldo Escudeiro
Trilha sonora: Gerald Thomas
Sonoplastia: Marcelo Alonso Neves
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Design gráfico: Bárbara Lana
Visagismo: Leila Turgante
Fotos: Robert Schwenk
Marketing digital: Cultura Lab e Rica Conteúdo Audiovisual
Assistente de direção: Osni Silva
Elenco de apoio: Anita Mafra, Jovi Silva, Vinícius Duarte
Coach de interpretação: Gutemberg Rocha e Amanda Brum
Operador de luz: Renato Lima
Operador de som: Gabriel Karim
Cenotécnicos: Denis Nascimento e André Sales
Diretor de palco: Leandro Brander
Contra-regras: Vinícius Duarte e Jovi Silva
Camareira: Lígia Soares da Silva
Diretor Geral de Produção: Luciano Borges
Direção de produção: Nilza Guimarães e Diogo Bastos
Coordenador financeiro: Edson Fieschi
Assistente de produção: Vitor Grimoni
Realização: Borges & Fieschi Produções e Winits Produções

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