Teatro

História da Violência de Édouard Louis






A violência e suas versões — Os Que Lutam


Crítica · MITsp 2026 · Schaubühne Berlin

A violência e suas versões: a dramaturgia do ponto de vista

Como a adaptação teatral de História da Violência transforma um episódio traumático em investigação sobre narrativa, classe e percepção social

História da Violência · Édouard Louis · Dir. Thomas Ostermeier · Schaubühne Berlin · Teatro Liberdade, São Paulo

A adaptação teatral de História da Violência, de Édouard Louis, apresentada na programação da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo em uma montagem da companhia berlinense Schaubühne, dirigida por Thomas Ostermeier, parte de um gesto dramatúrgico pouco comum. A encenação não tenta reproduzir diretamente um acontecimento traumático. O que ela investiga é outra coisa: como esse acontecimento passa a existir socialmente quando começa a ser narrado.

O episódio de violência que estrutura a obra não aparece como um fato estável. Ele se transforma à medida que circula entre diferentes narradores — o protagonista, a irmã, o cunhado, os policiais. Cada um reorganiza o relato a partir de sua própria experiência social. O que vemos em cena não é apenas a representação de um acontecimento, mas o processo pelo qual ele ganha sentido quando passa de uma consciência para outra.

Ator ao microfone com legenda projetada ao fundo: lustrei as maçanetas com lenços desinfetantes

Foto: Guto Muniz · História da Violência · MITsp 2026

O espetáculo começa com a polícia técnica examinando o apartamento em busca de vestígios. A investigação tenta reconstruir o que aconteceu a partir de marcas materiais. Logo em seguida, a narrativa introduz uma informação decisiva: o próprio protagonista havia limpado o espaço com cloro, apagando qualquer traço do que ocorreu naquela noite.

A cena da limpeza aparece então como gesto consciente de eliminação das provas. Mas o gesto produz uma ambiguidade imediata. Por alguns instantes, parece que aquele homem talvez esteja escondendo um crime.

A volta da polícia técnica no final reorganiza esse sentido. A investigação reaparece no palco, mas o público já sabe algo que os investigadores ignoram: não há mais provas a encontrar.

A violência aconteceu.
Mas os vestígios desapareceram.

O olhar como dispositivo teatral

Se o texto de Édouard Louis já opera literariamente por meio de uma polifonia de narradores, a encenação torna esse mecanismo visível. Um fundo branco domina o espaço cênico e funciona como tela para projeções geradas por pequenas câmeras manipuladas pelos próprios atores.

O recurso não surge como mero efeito tecnológico. Ele faz parte da lógica dramatúrgica do espetáculo. Cada vez que um personagem observa ou narra o outro, seu olhar pode ser captado e projetado. O fato nunca aparece em estado puro. Surge sempre mediado por um ponto de vista.

Cena com dois atores ao centro e atriz ao fundo observando

Foto: Guto Muniz · História da Violência · MITsp 2026

A cena passa então a operar em dois planos. No palco, os corpos executam ações concretas. Na tela, os rostos ampliados revelam como essas ações são percebidas.

Momentos de intimidade surgem ampliados como na grande tela.
O que parecia privado torna-se público.
É assim que a narrativa começa a circular.

Em meio a esse dispositivo narrativo fragmentado, a direção introduz elementos naturalistas que aparecem apenas quando necessários: um sofá, uma garrafa de refrigerante, um chuveiro que libera água em cena. Esses objetos não constroem um ambiente realista contínuo. Funcionam como pontos de ancoragem. Enquanto as narrativas se multiplicam e os pontos de vista se deslocam, esses elementos lembram ao espectador que o episódio ocorreu em um espaço concreto — um apartamento, um corpo, uma noite específica.

A encenação não abandona a análise.
Mas também não deixa a violência virar apenas conceito.

Narrativa, classe e interpretação social

Todas as vozes que reorganizam o acontecimento pertencem ao mesmo universo social. A irmã, o cunhado, os policiais e o protagonista são personagens situados no campo popular.

Ninguém manipula deliberadamente a narrativa. Não há uma figura exterior que detenha autoridade para fixar a versão “verdadeira” dos fatos.

As diferenças entre os relatos surgem de outra coisa: da trajetória de cada personagem. Ao ouvir a história, cada um a reorganiza a partir de sua própria experiência, de seus valores e de suas expectativas morais.

Atriz de suéter amarelo com cigarro, ator ao lado, homem de colete verde ao fundo

Foto: Guto Muniz · História da Violência · MITsp 2026

Um mesmo acontecimento circula por diferentes consciências.
E cada passagem altera ligeiramente o seu sentido.

Um dos pontos mais delicados da obra aparece justamente aí. O protagonista percebe que sua distância em relação ao agressor não é absoluta.

Ao longo da narrativa, torna-se evidente que ambos pertencem a universos sociais próximos. Restrições econômicas. Masculinidades endurecidas. Histórias atravessadas por violência simbólica.

A violência permanece.
O trauma também.
O que aparece com mais clareza são as condições sociais que cercam esse encontro.

Ator aponta arma para a cabeça de outro, atriz ao fundo com refrigerante
Foto: Guto Muniz · MITsp 2026
Cena com bicicleta, mesa com bebidas e microfone
Foto: Guto Muniz · MITsp 2026

A organização do elenco reforça esse movimento. Os atores que interpretam o agressor, o cunhado e a irmã assumem também outras figuras da narrativa, entre elas os técnicos da polícia que examinam o apartamento em busca de vestígios.

As identidades deixam de parecer estáveis. O mesmo corpo que participa do acontecimento pode surgir logo depois como agente institucional encarregado de reconstruí-lo.

O acontecimento não pertence a uma única voz.
Ele circula.

Com três atores, uma atriz e um músico em cena, o espetáculo organiza essa multiplicidade de narrativas por meio de mudanças constantes de ponto de vista.

A bateria executada ao vivo não funciona apenas como acompanhamento sonoro. Cada intervenção interrompe a possibilidade de estabilização dramática e lembra ao espectador que aquilo que se desenrola no palco é uma construção narrativa em curso.

Ostermeier não está apenas contando uma história.
Ele organiza a posição cognitiva do espectador.
O público não acompanha somente o que aconteceu.
Observa como o acontecimento é reconstruído, interpretado e colocado em circulação.

Ao final, nenhuma síntese reconfortante aparece. A violência permanece como fato irredutível. As narrativas continuam a se multiplicar. Entender o agressor não elimina o trauma da vítima. Punir o agressor não resolve as condições que produziram esse encontro.

A tensão permanece aberta.
Entre entender e julgar.
Entre explicar e punir.

Fotos: Guto Muniz · História da Violência · de Édouard Louis, com direção de Thomas Ostermeier · Schaubühne Berlin · Teatro Liberdade · MITsp 2026

Ficha Técnica

Texto Baseado no romance de Édouard Louis. Tradução do francês por Hinrich Schmidt-Henkel
Adaptação Thomas Ostermeier, Florian Borchmeyer e Édouard Louis
Direção Thomas Ostermeier
Elenco Christoph Gawenda, Laurenz Laufenberg, Renato Schuch, Alina Stiegler
Músico Thomas Witte
Assistente de direção David Stöhr
Cenografia e figurino Nina Wetzel
Vídeo Sébastien Dupouey
Música Nils Ostendorf
Dramaturgia Florian Borchmeyer
Iluminação Michael Wetzel
Assistência de coreografia Johanna Lemke
Assistente de cenografia Krystyna Granitza
Assistência de figurino Christin Noel, Mailys Leung Cheng Soo, Carlotta Zeitelhack
Assistência de vídeo Marie Sanchez
Direção de palco Marija Vahldiek
Ponto Heike Kroemer
Som Maxime Hladiy, Sebastian Melichar
Operadores de vídeo Farah Cherkit, Tom Czapka
Adereços Soraya Shili, Anais Laskus
Treinamento de coreografia Yeri Anarika Vargas Sánchez


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