Teatro

Contus d’Fadas pra Kabezas Dialetykas

Os procedimentos de cena do Oficina e a voz que se anuncia: Contus d’Fadas pra Kabezas Dialetykas

Teatro Oficina · Direção: Fabiana Serroni · Kafka em engrenagem cênica

Existe um conjunto de procedimentos de cena no Teatro Oficina. Não é um conjunto de regras escritas — é algo que está nas paredes, no palco inclinado que força o corpo a um desequilíbrio permanente, na passarela que corta a plateia e dissolve a fronteira entre quem age e quem assiste, nas escadas que sobem para fora do campo visual, na relação física e política com o espectador que ali não é voyeur — é atuante. Carnavalização, épico, expressionismo, coro como massa sonora, celebração coletiva como forma: esses não são vícios da casa — são os elementos de uma linguagem construída ao longo de décadas. Uma linguagem que muita gente aprendeu a imitar e poucos aprenderam a falar.

Cena no Teatro Oficina com performers e plateia implicada na ação.
O Oficina como relação: o espectador não observa — é convocado.

Contus d Fadas pra Kabezas Dialetykas, com direção de Fabiana Serroni, não imita esses procedimentos. O elenco — grande, majoritariamente jovem, acompanhado por uma banda de seis músicos ao vivo — os habita como quem nasceu naquele espaço. E, dentro dessa habitação, começa a construir algo novo.

Isso não é pouco. É, na verdade, o movimento mais difícil que um coletivo pode fazer dentro de uma tradição pesada: não fingir que ela não existe, não se curvar a ela como relíquia, e não romper com ela por ruptura declarada — romper por necessidade interna, quando o argumento exige. O que o espetáculo demonstra é que aprendeu os procedimentos da casa a fundo o suficiente para inventar um prato novo. Não requentou o que já estava feito. Não virou as costas para o fogão. Aprendeu a temperatura do fogo e colocou outros ingredientes.


Por que Kafka — e por que agora

A escolha de Franz Kafka como material não é óbvia, e é exatamente por isso que ela é acertada. Os contos curtos de Kafka — alguns com apenas um parágrafo, como observou Walter Benjamin, que os chamou de “contos de fadas para cabeças dialéticas” — são armadilhas de precisão. Condensam absurdo e diagnóstico numa proporção que não tolera imprecisão cênica: qualquer excesso que não esteja ancorado numa imagem clara transforma a parábola em ruído. E qualquer timidez que não enfrente o absurdo de frente transforma a denúncia em ilustração.

A montagem atravessa sete narrativas: Diante da Lei, Comunidade, Sociedade dos Cafajestes, Relatório para uma Academia, Desista!, Josefina, a Cantora, e O Desejo de Virar Indígena. Não é uma sequência linear — é uma engrenagem. Os contos se encadeiam por pressão temática: o embate com a lei, a captura da vida pelo negócio, o condicionamento da cultura citadina ocidental, o desejo de fusão com a terra. É um arco que vai do portão fechado ao corpo que quer desaparecer na natureza — e que, no caminho, passa por macaquices, cafajestices e o canto hipnótico de Josefina.

Imagem do espetáculo com atmosfera onírica e composição expressionista.
Kafka pede precisão: a imagem é a âncora do absurdo.

A banda de seis músicos ao vivo não ilustra as cenas: ela as habita, cria pressão, respira junto. Os coros potentes que comentam a ação constroem uma massa sonora que envolve todo o edifício — não como efeito, mas como procedimento dramatúrgico. O som não explica o que acontece: é parte do que acontece.


Nativos do espaço

Há uma diferença entre um elenco que usa o Teatro Oficina e um elenco que é do Teatro Oficina. A diferença aparece no corpo — na forma como a passarela é percorrida, como as escadas são habitadas, como o olho do ator encontra o olho do espectador não por acidente, mas por convicção.

O espectador no Oficina nunca é convidado a sentar e observar. É convocado. O ator olha nos olhos, toca, questiona, convida ao coro. Não existe o espectador-voyeur — existe o espectador-atuante. Esse procedimento, que em mãos estranhas vira agressão gratuita ou pedagogia forçada, aqui funciona porque o elenco o trata como o que é: uma relação, não uma técnica. A celebração coletiva não é imposta — é construída cena a cena, corpo a corpo, até que a plateia perceba que já estava dentro, antes mesmo de notar.

Cena com arquitetura do espaço cênico e performer em composição de risco.
O espaço exige o corpo: natividade não se aprende em manual.

Isso é natividade. Não se aprende em manual. Se aprende fazendo, errando, insistindo — num espaço que exige que você passe por ele, não apenas por cima dele.


Quando a imagem é o argumento

O caso mais bem resolvido do espetáculo é Diante da Lei. Um ator de origem andina, de raízes quechua do centro e sul dos Andes — carregando em cena sua própria ancestralidade, sua própria história de corpo que pediu passagem — encarna o camponês que tenta acessar um direito que lhe é negado. O conto de Kafka ganha uma camada que o texto não podia prever, mas que ele pressentiu: a parábola vira São Paulo. O portão da Lei vira fronteira real — de papel, de idioma, de classe, de cor. E vira também algo mais antigo: a fronteira que os Andes conhecem desde antes de qualquer estado moderno existir. Kafka ilumina o Brasil porque o corpo em cena é brasileiro, latino-americano, e carrega isso. A brasilidade não é declarada — ela emerge. Isso é mais difícil de fazer e mais interessante do que qualquer afirmação de identidade.

O espectador não precisa de mais explicação porque a imagem já é o argumento. Não há distância entre forma e conteúdo: o corpo do ator é o conteúdo.

Relatório para uma Academia também encontra clareza cênica. A macaca capturada de seu habitat e progressivamente humanizada — tornada celebridade, integrada ao mundo dos homens — é encenada com uma crueldade que está na precisão dos gestos, não no excesso deles. A cena não precisa gritar o que está dizendo: ela diz. E dizer, no teatro, é mais difícil do que gritar.

Performer com máscara em cena, com expressividade corporal.
Relatório para uma Academia: crueldade na precisão, não no excesso.

A cena final, O Desejo de Virar Indígena, vivida por um ator de raízes fulni-ô, fecha o arco com a mesma lógica: o desejo de fusão com a terra não é metáfora abstrata quando o corpo que o carrega tem essa memória inscrita. O Kafka europeu, passado por esse corpo, não é mais só Kafka — é outra coisa. Ainda reconhecível, mas com outro chão.


A tensão produtiva: onde a pesquisa ainda está aberta

O espetáculo não é uniforme — e seria desonesto dizer que é. Há momentos em que o abraço ao onírico, ao circo, à carnavalização típica da casa provoca uma queda de braço entre a clareza analítica e a explosão dos sentidos. Essa tensão não é um defeito — é o campo onde a pesquisa ainda está sendo travada, e reconhecê-la como tal é reconhecer o espetáculo pelo que ele realmente é: um processo em andamento, não um produto acabado.

O risco é conhecido. É o mesmo risco que o teatro político enfrenta desde que Brecht e Toller discutiram — por carta, por manifesto, por espetáculo — o que o teatro engajado deve fazer com o espectador. Toller apostava no choque expressionista: o impacto emocional como caminho para a consciência. Brecht desconfiava: impacto emocional comove, mas não necessariamente lucidifica. O espectador que sai arrasado pode ter esquecido, no meio da catarse, o que o arrasou — e por quê. O teatro épico queria que ele saísse com um mapa, não com uma ferida.

No caso de Kafka, essa tensão é ainda mais específica. Seus contos já são oníricos, já são absurdos, já são pesadelo — mas pesadelo com lógica interna de relógio suíço. Quando o teatro carnavaliza sobre o carnaval kafkiano sem a âncora de uma imagem precisa, o pesadelo se multiplica — e o que era diagnóstico pode virar apenas atmosfera. Uma atmosfera bela, perturbadora, teatralmente viva — mas que o sistema que Kafka queria dissecar absorve sem dificuldade. O horror subjetivo é inofensivo ao poder. O horror com endereço, não.

A pergunta que o espetáculo coloca — sem respondê-la completamente, e talvez sem precisar responder ainda — é exatamente essa: como usar os procedimentos da carnavalização, que são políticos por natureza, sem que se tornem um fim em si mesmos? Como o excesso serve ao argumento, em vez de consumi-lo?

Nos melhores momentos do espetáculo, a resposta aparece: quando o corpo em cena tem história real, quando a arquitetura do espaço é usada com intenção, quando o coro não ilustra mas pressiona — Brecht e Kafka se encontram sem se anular. O épico dá estrutura, o absurdo dá profundidade. O resultado não é mapa nem grito — é mapa que grita, na medida certa.


A voz que está sendo construída

O que torna este espetáculo relevante não é que ele resolva todas as suas tensões. É que ele as enfrenta com seriedade — com um elenco que tem teatralidade genuína, com escolhas dramatúrgicas que não facilitam, e com uma pesquisa coletiva que está visivelmente em movimento.

Elencos jovens em pesquisa correm dois riscos simétricos: o da reverência paralisante — quando a tradição da casa pesa demais e o resultado é imitação — e o da ruptura forçada — quando a vontade de diferença produz apenas negação. O coletivo de Contus d Fadas não cai em nenhum dos dois. Não decorou os procedimentos do Oficina para recitá-los. Está aprendendo a sintaxe — e começando a ter sotaque próprio. Isso é o que se chama, quando se consolida, de linguagem.

Há escolhas aqui que não vieram prontas do ar que se respira naquele palco. A precisão com que alguns contos são resolvidos, a decisão de ancorar o onírico em corpos com história real, a construção de uma engrenagem dramatúrgica que tem lógica interna mesmo quando a carnavalização ameaça engoli-la — isso é trabalho. É pensamento cênico que está sendo forjado coletivamente, cena a cena, temporada a temporada.

Detalhe de cena com máscara/figurino em luz intensa.
Procedimento como pesquisa: a forma não ilustra — pressiona.

O Teatro Oficina continua sendo o que sempre foi: um espaço que recusa a comodidade, que exige do artista que passe por ele e não apenas por cima dele. Que haja um coletivo jovem fazendo essa pergunta com Kafka — com banda ao vivo, com elenco grande, com os procedimentos da casa como campo de investigação e não como receita — isso não é continuidade automática. É escolha. É trabalho. É, no melhor sentido da palavra, pesquisa.

E pesquisa não se avalia pelo resultado final. Avalia-se pela qualidade da pergunta. Nesse aspecto, Contus d Fadas pra Kabezas Dialetykas pergunta bem — e pergunta alto.

Ficha técnica

Criação
Direção Fabiana Serroni
Concepção e Dramaturgia Santiago Willis da Silva e Guerra e Fabiana Serroni
Assistente de Direção Stella Prata
Direção de Arte Graciela Rodriguez
Direção Musical Adriano Salhab
Direção de Vídeo Ciça Lucchesi
Elenco / Atuantes Bruli; Carol Pinzan; Clara Lacava; Dan Salas; Fabiana Serroni; Filipe Alcarvan; Gustavo Dainezi; Joel Carlos; Lucas Massimo; Lufe Bollini; Márcio Ventura; Mila Sequera; Martin Levi; Paula de Franco; Rafael Castilho; Sandra Vilchez; Stella Prata; Yan Machado Ruffo
Figurino Arianne Vitale
Assistente de Figurino Mandy
Preparação Corporal Carol Pinzan, Joel Carlos e Stella Prata
Preparação de Circo Filipe Alcarvan e Wilson Feitosa
Músicos Adriano Salhab, André Lagartixa, Fefe Camilo, Lufe Bollini, Márcio Ventura, Otávio Malta e Pedro Abujamra
Teclados e Theremin Jefferson Placido
Participação Especial Sonora José Maria Cardoso
Operador de Som Nine
Microfonista Julia Ávila
Desenhos Graciela Rodriguez
Operação de Vídeo Victor Rosa
Iluminação e Operação de Luz Angel Taize e Vitória Pedrosa
Operação de Canhão Gustavo Nascimento
Operação de Câmera Zizi Yndio do Brasil e Luz Barbosa
Arte Gráfica Lufe Bollini
Mídias Clara Lacava e Gustavo Dainezi
Textos e Mídias Sociais Ciça Lucchesi, Fernanda Taddei e Fabiana Serroni
Assessoria de Imprensa Adriana Monteiro
Produção Sonia Esper
Direção de Cena Márcio Ventura
Assistentes de direção de cena e Contrarregragem Rafael Castilho e Artur Medeiros
Brigadista / Bombeiro Civil Amanda Aguiar Di Stadio
Bilheteria Sonia Esper
Administrador do Teatro Anderson Puchetti
Coordenação Técnica do Teatro Filipe Fonseca
Coordenação do Teatro Roseli Aparecida
Coordenação Casa de Acervo Elisete Jeremias
Guardiã dos Figurinos Cida Melo
Apoio JR Malabares; UP Ultra Foto – Loja especializada em equipamentos fotográficos; UNESP – Instituto de Artes; Ocupação 9 de Julho
Contato (Assessoria) Adriana Monteiro – (11) 99481-7953 / adriana@oficiodasletras.com.br – Ofício das letras – assessoria de imprensa do espetáculo

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2 Comentários

    • marcio.boaro

      O caso mais bem resolvido do espetáculo é Diante da Lei. Um ator de origem andina, de raízes quechua do centro e sul dos Andes — carregando em cena sua própria ancestralidade, sua própria história de corpo que pediu passagem — encarna o camponês que tenta acessar um direito que lhe é negado.

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