Teatro

Mas afinal, o que é Liberdade? Parte 1

Liberdade do Py para montar Liberdade, Liberdade

Núcleo Py / Companhia Antropofágica

Há uma inversão elegante no ponto de partida do Núcleo Py, da Companhia Antropofágica, ao revisitar Liberdade, Liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel. O texto original, de 1965, foi montado por habitantes do Leblon que se passavam por trabalhadores. A nova versão — renomeada Mas afinal, o que é Liberdade? para, segundo o release, lidar com os “modelos de censura vigentes” — inverte o dispositivo: são trabalhadores que fingem estar no Leblon. A distinção não é cosmética. É uma tomada de posição sobre quem tem o direito histórico de falar sobre liberdade, e de onde. Que essa moldura se sustente durante todo o espetáculo, num Teatro Pyndorama com cenografia minimalista — alguns elementos que evocam praia, banquinhos, a despretensão calculada de um luau — é o primeiro mérito da encenação.

Mas afinal, o que é Liberdade? — Núcleo Py / Companhia Antropofágica
Mas afinal, o que é Liberdade? — Núcleo Py / Companhia Antropofágica

O espetáculo começa com um gesto incomum: antes de qualquer ficção, uma atriz lê em voz alta uma proposição de várias páginas. Não é prólogo dramático nem apresentação de elenco — é um contrato. A encenação recusa a presunção de que o público já sabe o que esperar e estabelece desde o primeiro segundo um pacto de racionalidade: estas são as regras do jogo, este é o dispositivo, este é o acordo. O gesto rompe a ilusão mimética antes que ela se forme, o que é coerente com todo o arsenal brechtiano que virá depois — mas faz mais do que isso. Democratiza o acesso ao dispositivo. Quem nunca viu teatro político das décadas de 1960 entra orientado. Quem já viu entra com o contrato explicitado, não subentendido. É uma escolha dramatúrgica que diz algo sobre como a Companhia Antropofágica concebe sua relação com o público.

Para entender o que o Núcleo Py faz com esse texto, é preciso entender o que Liberdade, Liberdade significou em seu momento de origem. Em abril de 1965, o cenário político brasileiro era de contradição aguda: enquanto o PCB operava na clandestinidade, com quadros perseguidos e células desmanteladas pela repressão, um de seus mais brilhantes intelectuais, Oduvaldo Vianna Filho, podia ocupar o proscênio do Teatro de Arena para encenar Liberdade, Liberdade. A peça dava forma, em chave cênica, à política de frente ampla defendida pelo Partidão: uma resistência que, impedida de falar em nome próprio, recorria ao humanismo liberal e à tradição democrática ocidental como escudo estético e político.

Mas a montagem da Companhia Antropofágica não trata essa operação como peça de museu nem como gesto intocável da resistência. Ao contrário: parece compreendê-la também como sintoma de um deslocamento histórico. Ao recolocar em cena um texto montado, em 1965, por artistas de classe média que falavam em nome da liberdade a partir de um circuito já apartado do contato direto com os explorados, o Núcleo Py faz da crítica parte da própria forma. A inversão assumida no release — não mais habitantes do Leblon que se passam por trabalhadores, mas trabalhadores que fingem estar no Leblon — é o sinal mais nítido disso.

A homenagem e a crítica caminham juntas. O espetáculo reconhece a inteligência tática de Liberdade, Liberdade, mas também expõe, esteticamente, seu viés de origem e o preço histórico dessa mediação.

Nesse sentido, a montagem parece convergir com a formulação de Iná Camargo Costa sobre a passagem do CPC para o Opinião: o teatro de esquerda, afastado do contato com os explorados, desloca-se para o mercado cultural e para o público universitário e de classe média, e formas pensadas para outro circuito passam a funcionar também como símbolo vendável da revolução. O mérito do Núcleo Py está em não apagar essa contradição, mas em transformá-la em dispositivo cênico.

Esse arranjo ajuda a entender a própria arquitetura do texto de Millôr e Rangel: uma dramaturgia construída sobre citações múltiplas e deliberadamente heterogêneas, em que Churchill pode aparecer ao lado de Lincoln, referências da direita liberal convivem com a tradição progressista, e a palavra “liberdade” circula entre vozes que não coincidem entre si. Não se trata de confusão ideológica, mas de estratégia. A única forma de levar o debate ao público mais amplo era recusar a entrega da palavra a um único campo. Convocar Paulo Autran, nome de prestígio e respeitabilidade, ao lado de atores identificados com a esquerda era parte do mesmo cálculo: ampliar o escudo, dificultar a proibição.

Mas afinal, o que é Liberdade? — Núcleo Py / Companhia Antropofágica
Mas afinal, o que é Liberdade? — Núcleo Py / Companhia Antropofágica

O escudo funcionou, mas de uma forma que a história registrou com precisão implacável. O Marechal Castelo Branco interveio pessoalmente para proteger a montagem, escrevendo ao seu Ministro da Guerra, Artur da Costa e Silva, criticando a “truculência” da ala radical da ditadura que pressionava pelo fechamento. O argumento era que as ideias se combatem com ideias, não com a polícia — e foi essa intervenção que deu ao General Riograndino Kruel o respaldo para ignorar as pressões e assinar a autorização. A peça símbolo da resistência à ditadura foi salva por um ditador que usava a cultura como instrumento de controle interno do próprio aparato repressivo. Meses depois, ainda em 1965, o mesmo Castelo Branco assinaria o AI-2, estabelecendo eleições indiretas e o bipartidarismo que consolidaram as bases da ditadura. A proteção à peça e o aprofundamento da repressão não eram contradição: eram faces do mesmo projeto de controle. A encenação do Py apresenta esse documento em cena, lido com voz de narrador, sem exclamação fácil. É a escolha certa: a contradição não precisa de sublinhado. Ela fala por si.

O que torna o espetáculo relevante para além da arqueologia histórica é que essa abertura constitutiva do texto original ressoa com precisão no presente. A direita brasileira passou anos sequestrando o vocabulário da liberdade — transformando a palavra num grito de campo, num signo de pertencimento tribal. Um espetáculo que recusa devolver essa palavra a um único dono, que insiste em perguntar “mas afinal, o que é liberdade?” sem resposta prévia, está fazendo algo politicamente necessário. A Companhia Antropofágica pesquisa esse texto há quase vinte anos e a direção demonstra compreender que a indeterminação de Millôr não era fraqueza — era sua inteligência política. Trazê-la para 2026 sem resolvê-la, mas submetendo-a à crítica, é um gesto de honestidade intelectual que poucos espetáculos de agitprop se permitem.

O arsenal de distanciamento é completo — apelos diretos à plateia, comentário sobre o próprio ato de encenar, música como interrupção e não como ambiência, exposição das costuras, cartazes e projeções que legendam a ação. Elenco cênico e musical integrados em cena, piano elétrico e bateria como coluna sonora de um rito que se quer coletivo. Quando um dos atores empunha a guitarra elétrica, a opção é acompanhar musicalmente, não cortar — uma oportunidade de comentário que a encenação deixa passar, mas que não compromete o conjunto. A crítica à social-democracia e ao discurso revolucionário desassociado de ações práticas coerentes aparece com força cênica — e é ali que o espetáculo é mais honesto consigo mesmo, porque inclui entre seus alvos o campo ao qual pertence.

Mas afinal, o que é Liberdade? — Núcleo Py / Companhia Antropofágica
Mas afinal, o que é Liberdade? — Núcleo Py / Companhia Antropofágica

Há uma tensão interna ao elenco que vale nomear — não como crítica, mas como dado de formação. O Núcleo Py reúne uma geração que se constituiu numa relação diferente com o texto dramático: menos como autoridade a ser habitada, mais como material a ser trabalhado, comentado, improvisado. Essa formação encontra seu lugar natural no modo distanciado que a encenação propõe — e é ali que o elenco opera com maior conforto e precisão. Quando o espetáculo recorre ao discurso de Marco Antônio sobre o corpo de César, a opção é pela entrega dramática dentro da ficção. O ator que assume a cena dá conta — mas o momento revela, por contraste, que a habitação plena do texto clássico é um território ainda em construção para o grupo. O que não é demérito num núcleo de formação; é exatamente o tipo de atrito produtivo que justifica sua existência.

Mas afinal, o que é Liberdade? é um espetáculo que sabe o que quer dizer e encontrou uma forma coerente para dizê-lo. Que o Núcleo Py tenha escolhido Liberdade, Liberdade como objeto de estudo há quase vinte anos, e que volte a ele agora com nova formação e perguntas renovadas, diz algo sobre a seriedade do projeto da Companhia Antropofágica. A liberdade de montar Liberdade, Liberdade — de tomá-lo como laboratório, de revirá-lo, de recusar suas certezas e de criticar esteticamente seu viés histórico — é, no fundo, o que o espetáculo defende. E consegue defender.

Mas afinal, o que é Liberdade? estreia sua segunda parte em abril, com o segundo ato da encenação.

Ficha Técnica

Elenco cênico
Alessandra Arvati, Demétrio Abrahão, Lívia Bodstein, Max Lopez, Pedro Barufi, Rafael Graciola, Renata Adrianna, Santo Bezerra, Vito Fava
Elenco musical
Bruno Miotto, Flávia Ulhôa, Gabriela Jeniffer, Pedro Barufi, Felipe Herculano
Direção geral
Thiago Reis Vasconcelos, Flávia Ulhôa
Direção convidada
Zernesto Pessoa, Fernando Neves
Direção musical
Flávia Ulhôa
Cenografia e figurino
Flávia Ulhôa, Santo Bezerra, Thiago Reis Vasconcelos, Vito Fava
Iluminação
Zernesto Pessoa, Gustavo A. Amat
Preparação vocal
Sonia Goussinsky
Arte gráfica
Max Lopez, Santo Bezerra, Vito Fava
Produção
Alessandra Queiroz, Flávia Ulhôa, Maria Tereza Urias, Renata Adrianna, Santo Bezerra, Vênus Czarnobay, Vito Fava

Mas afinal, o que é Liberdade?

Núcleo Py / Companhia Antropofágica
Temporada: 10, 17, 24 e 31 de março de 2026
Horário: terças-feiras, às 20h
Local: Teatro Pyndorama — Rua São Domingos, 224, Bixiga, São Paulo
Ingressos: contribuição espontânea  ·  Classificação etária: 18 anos

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