“Vocês Não Entenderam Nada” – riso, mercadoria e cancelamento em uma sala de estar | Os que Lutam
Em “Vocês Não Entenderam Nada”, o Teatro do Incêndio utiliza a obra “A Babá” (La Baby-sitter), de René de Obaldia, como espelho das patologias sociais geradas por uma vida organizada sob o signo da mercadoria. A peça explora o esgarçamento dos laços afetivos, a violência como linguagem e a perseguição do diferente como subprodutos de um cotidiano em que tudo — inclusive a palavra e o afeto — é reduzido a valor de troca.
A dramaturgia demonstra conhecer bem o repertório do surrealismo e do chamado teatro do absurdo, mas decide atuar num registro de acesso ampliado, em que a crítica não se dissocia do reconhecimento imediato. Não estamos na escuridão trágico-alegórica de um Friedrich Dürrenmatt, em que o colapso do mundo é literalmente encenado, e sim diante de outra estratégia: mostrar como a catástrofe já se instalou no cotidiano, só que naturalizada. Em vez do desespero metafísico, Obaldia aposta no riso de reconhecimento. A sala de estar, os diálogos automáticos, a religiosidade de fachada, o casamento administrado como contrato: tudo aparece como pequena engrenagem da grande máquina da mercadoria. Na boca das personagens, a palavra perdeu densidade; circula como moeda gasta. Quando rimos, rimos desse empobrecimento – e, sem perceber, somos levados a medir a distância entre o que dizemos e o que, de fato, sentimos ou suportamos.
O título brasileiro, “Vocês Não Entenderam Nada”, retirado de um poema de Claudio Willer (1940–2023), condensa bem essa operação. A frase devolve ao público a sensação de estar sempre em falta diante de um sentido que nunca se cumpre: entender o quê, exatamente, quando a própria vida foi reorganizada como vitrine? Ao acompanhar esse casal em sua noite “comum”, percebemos como a violência cotidiana – simbólica, moral, sexual – está tão naturalizada que se confunde com direito adquirido. Quando a jovem crente/Santa passa a ser tratada como objeto de uso, a peça escancara um linchamento íntimo que antecipa, em escala doméstica, o mecanismo do “efeito manada” nas redes: o outro é reduzido a erro, cancelado, exposto, consumido e descartado. A fúria moral aparece como mais uma forma de administrar a própria impotência dentro de uma sociedade em que até a indignação precisa gerar algum tipo de lucro simbólico.
O material do espetáculo chama atenção, com razão, para a literalidade e a banalização das palavras num tempo de monólogos narcísicos. Essa crítica retorna ao próprio teatro quando a montagem recusa o solo autocentrado e aposta numa contracena afiada entre três intérpretes. A violência em cena nunca é abstrata nem discursiva: ela se dá sempre em relação – no insulto dirigido, no corpo exposto ao olhar alheio, na humilhação compartilhada entre quem agride e quem assiste. O arco do espetáculo vai da ironia contundente e do humor escrachado à violência fatal, sem jamais abandonar a pergunta: o que significa, hoje, falar em “culpa”, “redenção” ou “santo” num mundo em que tudo opera como crédito e débito simbólico?

Há ainda um aspecto decisivo: o prazer de ver o ofício do ator exercido com precisão num contexto em que a própria experiência teatral disputa espaço com o consumo acelerado de imagens. O texto de Obaldia é uma partitura rítmica traiçoeira; um tempo errado mata a ironia. O que se vê em cena, porém, é domínio do “tempo” e da escuta mútua. Existe um gosto palpável pelo ato de atuar, uma cumplicidade entre Arianne Botelho, Liz Reis e Marcelo Marcus Fonseca que transborda do palco e captura a plateia. O jogo cênico flui com organicidade, revelando técnica apurada e amor pela carpintaria teatral. Na comédia, a precisão é a alma da graça; aqui, também é ferramenta crítica – é ela que permite que o riso não se transforme em puro entretenimento anestesiante.
A direção trabalha esse material de forma consciente, valorizando tanto o gesto mínimo quanto o exagero calibrado. Pausas, olhares atravessados, corpos que endurecem diante do imprevisto, palavras que tropeçam quando a moral vacila – tudo compõe a partitura da noite. A sala de estar de classe média, construída pela cenografia de Marcelo Marcus Fonseca e Dan Maaz e ocupada pelos figurinos de Alison Falconeres, não é apenas um cenário; é o campo de batalha simbólico onde uma certa ideia de “vida normal” vai sendo desmontada pela visita do estranho, do desejo e da culpa. O espaço doméstico revela sua verdadeira natureza: não o abrigo neutro da família, mas a célula onde se reproduzem, em escala microscópica, os valores e violências da sociedade de classes.

Essa desmontagem não é uma revolução formal, mas é eficaz no campo do olhar do público. A peça constrói um tipo de crítica social que dispensa jargão teórico e se apoia no reconhecimento imediato: casais, grupos de amigos, espectadores que nunca ouviram falar em Obaldia podem entrar, rir, identificar-se, reconhecer frases, cenas e violências que se repetem fora do teatro. Quem sai rindo e dizendo “somos nós” talvez ainda não tenha elaborado uma síntese política do que viu – mas já deu um primeiro passo, o de admitir que aquele pequeno inferno organizado também lhe pertence. Em tempos em que quase tudo é convertido em produto, o simples fato de suspender por uma hora e meia a lógica da mercadoria para olhar de frente nossas próprias patologias já é um gesto incômodo. O riso, aqui, não consola: fere de leve. E é justamente nessa fresta que pode começar, se quisermos, algum entendimento.
Vocês Não Entenderam Nada não resolve as contradições que expõe – e esse talvez seja um dos seus méritos. Ao invés de oferecer uma saída redentora, a montagem nos devolve à nossa própria impotência ativa: o reconhecimento de que participamos da engrenagem que criticamos. A comédia escolhida como via não suaviza o diagnóstico; torna-o suportável o suficiente para ser visto sem desviar os olhos. Entre a gargalhada e o incômodo que persiste depois, permanece a sensação de que há algo a entender – e de que não será possível seguir fingindo que se trata apenas de uma noite qualquer na sala de estar.


