
A Palma — foto: © Renato Mangolin
A Palma: sensibilidade em estado de consumo
Por Márcio Boaro
Entre o chamado do ofício e a engrenagem do mercado cultural.

A Palma trata de uma contradição estrutural que atravessa o teatro moderno e contemporâneo e, de modo particular, a vida de quem escolhe a atuação como ofício. Não se trata de vaidade individual nem de fragilidade subjetiva, mas do choque entre dois campos inconciliáveis: o chamado profundo da atuação — esse lugar onde o sujeito se oferece inteiro ao trabalho, aceita a duplicidade, dilata a própria experiência e encontra sentido no gesto coletivo — e a indústria cultural, organizada segundo a lógica do lucro, que transforma sensibilidade em matéria-prima e vende o sucesso individual como promessa de realização.
O ofício da atuação é especialmente vulnerável a essa captura porque responde de forma quase perfeita às necessidades humanas mais profundas: pertencimento, escuta, troca, imaginação, elaboração simbólica da dor, convivência com o outro. É um trabalho ancorado na relação. Justamente por isso, é facilmente apropriado por um sistema que desloca essa base relacional para um discurso de mérito individual, competição permanente e exceção transformada em regra imaginária.

A indústria cultural não vende apenas produtos ou espetáculos; ela vende uma ideologia de realização pessoal. O sucesso aparece como horizonte sempre possível, sempre ao alcance do indivíduo que “insiste”, “acredita” e “se entrega”. O que se oculta é que esse sistema depende estruturalmente da frustração da maioria para sustentar o brilho de poucos. A promessa é ilimitada; a entrega cotidiana é mínima, intermitente, precária. Entre uma coisa e outra, instala-se a fratura.
É dessa fratura que nasce a crise da personagem central de A Palma. Uma atriz em colapso não porque falhou, mas porque tentou viver honestamente de um ofício que exige tudo: tempo, corpo, afeto, identidade, disponibilidade psíquica. Em troca, recebe instabilidade, insegurança e uma cobrança permanente por sucesso — entendido não como sentido ou pertencimento, mas como visibilidade e reconhecimento individual. O colapso, aqui, não é psicológico: é estrutural.
A dramaturgia acerta ao fazer com que essa crise se manifeste por meio da incorporação inconsciente de fragmentos de A Gaivota, Fala Baixo Senão Eu Grito e Um Bonde Chamado Desejo. A escolha desses textos não é aleatória nem ilustrativa. São obras profundamente distintas entre si, mas unidas por um mesmo ponto de ebulição: mulheres em estado de transbordamento, tensionadas entre delicadeza aparente e fúria contida, entre desejo e limite, entre expectativa e realidade.

Em Tchékhov, o desejo artístico e a vida prometida nunca coincidem plenamente com o mundo possível; em Leilah Assunção, a explosão contida revela a violência cotidiana que se acumula no silêncio; em Tennessee Williams, o delírio surge como defesa diante de uma realidade que já não comporta o desejo. Ao recorrer a esses textos, a personagem de A Palma não cita repertório — ela pensa e sente através dele. O teatro surge como linguagem interna, como vocabulário emocional de quem só consegue nomear a própria experiência pela mediação das personagens que já viveu ou amou.
Esse procedimento dramatúrgico é um dos grandes acertos da peça: compreender que, para quem vive do ofício, o teatro não é referência externa, mas modo de pensamento. Quando a vida aperta, é pela cena que se fala, é pela ficção que o corpo tenta organizar o real. O riso, o delírio e o humor que atravessam A Palma não funcionam como fuga, mas como fissura crítica — um modo de olhar a própria condição sem se confundir inteiramente com a mentira do sucesso prometido.
A encenação acompanha essa tensão ao rejeitar o naturalismo como horizonte único. A atuação oscila entre momentos mais realistas e outros abertamente expressionistas, sempre puxando pela expressão, pela forma, pela teatralidade consciente. Não se trata de estilização gratuita, mas de uma escolha coerente com o tema: quando a vida já não comporta o desejo, a linguagem também precisa transbordar. A crise não cabe no registro cotidiano; ela exige deslocamento, exagero, fissura. Ao assumir essa teatralidade comunicativa, A Palma recusa a psicologização da derrota e afirma o teatro como espaço de pensamento partilhado.
A Palma se inscreve, assim, numa tradição longa de obras que enfrentam a contradição entre arte, mercado e subjetividade. Desde The Cradle Will Rock, de Marc Blitzstein, nos anos 1930 — e suas reinterpretações posteriores no cinema — até filmes como The Star, com Bette Davis, ou textos centrais do teatro político brasileiro, como Um Grito Parado no Ar, de Guarnieri, e Moço em Estado de Sítio, de Vianinha, a questão retorna: o que acontece com o sujeito que se entrega ao ofício artístico em um sistema que transforma desejo em mercadoria e sensibilidade em desgaste?
Em todas essas obras, o conflito não se resolve pela consagração individual. Ao contrário: o sucesso aparece como miragem, enquanto o que sustenta os artistas é a permanência dos vínculos, a consciência coletiva, a recusa — explícita ou silenciosa — de medir a vida apenas pelos critérios do mercado.

O trabalho do elenco sustenta com rigor e afinação esse campo de tensões. Há uma escuta real em cena, uma qualidade de presença que só se constrói ao longo do tempo e da experiência compartilhada. A crise da personagem central não é isolada nem espetacularizada; ela reverbera porque encontra acolhimento e reconhecimento nos parceiros de cena, que compreendem profundamente a contradição vivida — porque a vivem também. A direção demonstra clareza do caminho escolhido, conduzindo a encenação com firmeza entre realismo e transbordamento expressivo, sem perder o eixo nem diluir o conflito. A dramaturgia encontra, assim, uma leitura cênica coerente e consciente, que confia no texto, na atuação e na inteligência do público, afirmando um teatro que pensa enquanto se faz.
No fundo, A Palma não fala de fracasso pessoal nem de sucesso negado. Fala do preço subjetivo cobrado por uma indústria que se alimenta da paixão, do ego e da sensibilidade de seus trabalhadores, enquanto vende uma ideia enganosa de realização individual. Ao sustentar essa contradição sem síntese, a peça se recusa a trair o próprio ofício que defende.
O que permanece, ao final, não é a promessa do mercado, mas algo mais antigo e mais resistente: o encontro, o reconhecimento mútuo, a consciência de que a arte só faz sentido quando não abandona sua raiz humana e coletiva — mesmo quando isso implica viver em tensão permanente com o mundo que a cerca.
Ficha técnica — A Palma
- Texto: Claudia Barral e Marcos Barbosa
- Elenco: Gilda Nomacce, Verónica Valenttino e Donizeti Mazonas
- Direção e argumento: Mariano Mattos Martins
- Assistência de direção: Isabel Wolfenson
- Cenografia: Paloma Mecozzi
- Figurino: Rogério Romualdo
- Trilha sonora: Negro Leo
- Iluminação: Wagner Antônio
- Equipe técnica de iluminação: Débora Pereira, Guilherme Mascarenhas e Júlia Fávero
- Preparação corporal: Danielli Mendes
- Colaboração artística / voz do Host: Daniel Passi
- Gravação, edição e mixagem de áudio: Rodolfo Dias Paes — Dipa
- Operação de som: Jean Rebeldia
- Coordenação de produção: Dani Correia
- Produção executiva: Tayná Cabral
- Assistência de produção: Dea Millene
- Acompanhamento de processo: Larissa da Matta
- Coordenação técnica: Rafael Matede
- Cenotécnico: Jhonatta Moura Barreto
- Assistência de desenho técnico: Lara Paim
- Costura: Viní Nara; Salete André
Ficha Técnica
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BOARO, Márcio. A Palma: sensibilidade em estado de consumo. Os Que Lutam, São Paulo, 17 jan. 2026. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/a-palma-sensibilidade-em-estado-de-consumo.
Boaro, M. (2026, 17 de janeiro). A Palma: sensibilidade em estado de consumo. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/a-palma-sensibilidade-em-estado-de-consumo
BOARO, Márcio. "A Palma: sensibilidade em estado de consumo." Os Que Lutam, 17 de janeiro de 2026. https://osquelutam.com.br/criticas/a-palma-sensibilidade-em-estado-de-consumo.
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A Palma
2025
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