
Moisés Pazianotto
As amantes de George Washington - Teatro BDO - Jaraguá
Andar de costas para ver o possível
As Amantes de George Washington, de Miro Gavran, com direção de Darson Ribeiro, chega ao Brasil pela primeira vez, com quase quarenta anos de atraso em relação à sua estreia em Zagreb, em 1988. O formato ajuda a explicar sua circulação internacional: dois personagens, um único espaço, conflito reconhecível, produção viável. Produtores do mundo inteiro reconhecem nele a possibilidade antes mesmo de reconhecerem a dramaturgia.
Gavran sabe o que faz. A carpintaria é competente, os momentos de virada chegam na hora certa, a progressão dramática sustenta o interesse do público. Mas o que ele constrói, no primeiro plano, é uma história de amor romântica, bem executada, emocionalmente eficiente e ideologicamente confortável. O que a peça contém sem tematizar, porém, é mais interessante do que aquilo que ela propõe.
A cena é esta: 14 de janeiro de 1800, um mês após a morte de George Washington, sua viúva Martha recebe em casa Sylvia Carver, a suposta amante do marido. O que se segue é o confronto de duas mulheres inteligentes, articuladas e capazes, que viveram à sombra de um homem não porque lhes faltassem atributos, mas porque a sociedade de seu tempo não lhes oferecia outro lugar de desenvolvimento.
Esse é o ponto mais forte da peça, talvez contra a própria peça. Martha e Sylvia não são mulheres socialmente despossuídas no sentido material mais imediato. São brancas, têm estabilidade financeira, circulam perto do poder e do prestígio. Não estão fora da casa grande da história. Estão dentro dela. E justamente por isso a contradição se torna mais nítida: mesmo no interior da classe dominante, mesmo próximas ao centro simbólico da fundação dos Estados Unidos, continuam sem acesso real ao mundo público.
Washington era o eixo. Não apenas o homem amado, disputado ou lembrado, mas a mediação entre aquelas mulheres e a história. Por meio dele, elas tocavam a política, a reputação, a narrativa nacional, a possibilidade de alguma inscrição no mundo. Sem ele, o que resta não é liberdade, mas administração da ausência.
Com ele morto, o eixo desaparece. Elas foram deixadas amparadas financeiramente, mas a herança não libera. Congela. A estabilidade material, nesse caso, não produz emancipação. Apenas conserva a cena, porque a herança não é só posse — é relação social. Permite que elas continuem existindo, mas não que passem a existir de outro modo. Washington morre em dezembro de 1799. A peça se passa em janeiro de 1800. Elas atravessam a fronteira do século sem atravessar coisa nenhuma.
O novo mundo que o marido ajudou a fundar não tem lugar para elas no tempo que vem. Só no tempo que passou. São mulheres colocadas diante da promessa moderna de futuro, autonomia e realização individual, mas impedidas de participar dessa promessa como sujeitos. Podem amar, sofrer, esperar, recordar, administrar a casa, guardar documentos, proteger reputações. Não podem projetar a própria vida como destino histórico.
Há uma ironia que a peça não percebe inteiramente em si mesma: Washington é o símbolo do país que nasce olhando para o futuro, a nação do novo mundo, do homem que se faz, da liberdade convertida em mito fundador. As mulheres ao redor desse homem-símbolo do porvir estavam estruturalmente presas ao passado. O país nasce; elas ficam.
Por isso, a pergunta mais incômoda não é qual delas foi mais amada por Washington. A pergunta é o que cada uma delas poderia ter sido se não precisasse ter existido por meio dele. O amor, ali, é a forma privada de uma impossibilidade pública. Quando a sociedade impede a mulher de se realizar como sujeito histórico, resta transformar o homem em destino.
Nesse sentido, As Amantes de George Washington toca, ainda que de modo indireto, em uma questão decisiva: a limitação social do desenvolvimento humano. Não se trata apenas de opressão como sofrimento visível, brutal, miserável. Trata-se também de uma opressão sofisticada, elegante, bem vestida, protegida por patrimônio, educação e boas maneiras. Uma opressão que não impede a sobrevivência, mas bloqueia a expansão da vida.
Martha e Sylvia não são impedidas de comer, morar ou circular. São impedidas de converter as possibilidades históricas de seu tempo em vida efetiva.
A montagem de Darson Ribeiro tem o mérito de não inflar o que o texto não pede. O cenário é minimalista, a luz trabalha com inteligência a passagem do tempo, como se aquela conversa tivesse durado horas, como se as duas tivessem chegado ali exaustas de uma vida inteira. Há uma contenção adequada na encenação, que confia na palavra, no embate e na presença das atrizes.
Claudia Ohana e Priscila Fantin sustentam o espetáculo inteiro no jogo entre elas, e fazem isso com consistência. Não é pouca coisa: duas atrizes em cena, sem apoio de uma grande estrutura dramática além do próprio texto, da escuta e da presença. A relação entre as personagens depende menos de explosões do que de deslocamentos internos, pequenas mudanças de posição, pausas, olhares, feridas que se revelam aos poucos. A montagem encontra sua melhor temperatura quando permite que a rivalidade aparente vá cedendo lugar a algo mais complexo: o reconhecimento de uma prisão comum.
O que fica, saindo do teatro, não é a reviravolta que os materiais de divulgação anunciam como virtude. É a imagem de duas mulheres inteligentes que viveram de costas para o futuro. Não por escolha, não por fraqueza, não por excesso de amor, mas porque o futuro, naquele mundo, não tinha lugar para elas.
E talvez seja essa a melancolia mais dura da peça: elas estavam muito perto do nascimento de um novo tempo. Estar perto, para uma mulher naquela classe e naquele tempo, era exatamente o modo como o sistema as mantinha do lado de fora.
Ficha Técnica
Texto
Miro Gavran
Adaptação e direção-geral
Darson Ribeiro
Com
Claudia Ohana e Priscila Fantin
Assistência de direção e de produção
Reinaldo Bancks
Cenografia, luz, trilha sonora e figurinos
Darson Ribeiro
Assistência e execução de figurinos, ateliê e alfaiataria
Eduardo Gardenal
Design gráfico e mídia
Higor Lemo
Imagens
Neto Lima
Coordenação técnica
Henrique Polli
Auxiliar de palco e camarim
Marco Alvarenga
Prosódia e fonoaudiologia
Ale Zalaf
Assessoria jurídica
Adalberto Kühl
Assessoria de engenharia e arquitetura
André Kühl
Assessoria de imprensa
Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho
Fotos
Moisés Pazianotto
Citar este texto↓
BOARO, Márcio. As amantes de George Washington - Teatro BDO - Jaraguá: Andar de costas para ver o possível. Os Que Lutam, São Paulo, 2 maio 2026. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/as-amantes-de-george-washington-teatro-bdo-jaragua.
Boaro, M. (2026, 2 de maio). As amantes de George Washington - Teatro BDO - Jaraguá: Andar de costas para ver o possível. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/as-amantes-de-george-washington-teatro-bdo-jaragua
BOARO, Márcio. "As amantes de George Washington - Teatro BDO - Jaraguá: Andar de costas para ver o possível." Os Que Lutam, 2 de maio de 2026. https://osquelutam.com.br/criticas/as-amantes-de-george-washington-teatro-bdo-jaragua.
Rede desta crítica
Continue pelo arquivo a partir deste espetáculo, das pessoas da ficha e de outras leituras próximas.
Espetáculo
AS AMANTES DE WASHINGTON
2026
Pessoas desta montagem
Direção
Ficha em expansão
Esta crítica ainda não tem uma direção identificada na ficha técnica publicada.
Leituras próximas
Continue no arquivo
Ainda não há outras leituras ligadas a este espetáculo no mesmo arquivo.
Comentários e contribuições: editorial@osquelutam.com.br