
Andrea Nestrea
As Centenárias de Newton Moreno no SESC Bom Retiro
As Centenárias: memória, ofício e a amizade como pacto de vida
Por Márcio Boaro
Há espetáculos que chegam ao palco no momento exato. As Centenárias, de Newton Moreno, com direção de Luiz Carlos Vasconcelos e canções originais de Chico César, é um deles, mas por razões que não são imediatamente óbvias. A peça estreou originalmente em 2007, com Marieta Severo e Andréa Beltrão, e marcou uma geração do teatro brasileiro. Naquela montagem, o texto evocava um mundo em dissolução. Nesta, com Juliana Linhares e Laila Garin nos papéis centrais, aquele mundo já desapareceu. O que era nostalgia virou arqueologia afetiva. E paradoxalmente, isso fortalece a peça.
Socorro e Zaninha são carpideiras centenárias do sertão nordestino que vivem do ofício de chorar mortos alheios. Duas mulheres que atravessaram um século administrando a fronteira entre vivos e mortos, guardando segredos que o ofício impõe silenciar. O próprio Newton Moreno define com precisão o eixo do texto: “O carpir se impõe como território do feminino, maternal, um acarinhar e cuidar da morte de cada defunto como de um filho.” A maternidade como metáfora do luto profissional é uma chave dramatúrgica rara, e a peça a sustenta sem pietismo.

A estrutura dramatúrgica também revela grande domínio técnico. Sempre que algo do passado precisa ser explicado, Newton Moreno recorre ao flashback com inteligência rara. O procedimento nunca aparece como ilustração preguiçosa nem como interrupção da ação presente. Ao contrário, entra com clareza, agilidade e função dramática precisa. O passado não pesa sobre a cena como explicação; ele irrompe, ilumina uma contradição e devolve as personagens ao presente com mais densidade. Isso dá fluidez ao texto e impede que a peça se torne narrativa memorialística ou relato explicativo.
O que a montagem de 2026 acrescenta ao texto não é apenas música. É uma nova camada de tempo. As tradições que Newton Moreno retrata levaram séculos para se formar no sertão, aclimatando ao Nordeste referências que vieram da colonização europeia e se tornaram genuinamente brasileiras na lentidão da transmissão oral e corporal de geração em geração. O carpir, a ladainha, a rezadeira, o folheto: tudo isso viajava na velocidade do corpo humano. A dissolução, ao contrário, levou cinquenta anos. Uma geração. Quem nasceu nos anos 1960 no sertão ainda viu. Quem nasceu nos anos 1990 já não viu. A televisão entrou, a migração fez o resto. O que Newton Moreno capturou é exatamente essa janela que está se fechando.

É curioso que o público jovem, que talvez só conheça esses elementos pela dramaturgia, reconheça o que vê como ancestralidade, não como curiosidade antropológica. Isso distingue As Centenárias do regionalismo folclorizado. Newton Moreno não heroiciza o Nordeste, não o mitifica à maneira de Suassuna, cuja grandiosidade armorial opera em escala monumental. Aqui a escala é miúda: duas velhas, um ofício, uma amizade. A dignidade não é proclamada, emerge do cotidiano do trabalho. E Suassuna, é preciso lembrar, também falava de memórias distantes, de costumes e personagens que vieram para o Brasil na colonização. A diferença é que em As Centenárias essa memória ainda está quente: ainda existe quem a carregue.
As 16 canções de Chico César não foram costuradas ao texto, nasceram dele. Não se vê a solda. Chico César conhece o ambiente que o texto habita e compreendeu a proposta dramatúrgica com precisão: assim como o espetáculo opera na escala da vida ordinária, a canção popular é a forma que cabe nessa vida, não no monumento. Uma das canções, que fala de muito que se viu mas não se pode dizer que se viu tudo, funciona como signo preciso da condição das duas personagens: testemunhas profissionais da morte alheia, guardiãs de silêncios que o ofício exige. É uma imagem poeticamente densa, e Chico César a sustenta musicalmente sem forçar o peso.

Juliana Linhares e Laila Garin são simétricas e complementares. A montagem acentua a comicidade, mas as duas atrizes têm recursos para avançar pelo peso da finitude quando o texto exige, sem que a passagem pareça calculada. Leandro Castilho, interpretando mais de seis personagens apenas com trocas de figurino, sem maquiagem, dá tom preciso à comédia, e o fato de tocar baixo em alguns momentos dissolve a separação entre ator e músico, reforçando que tudo ali é ofício, trabalho corporal. Assim como carpir é ofício.
A solução cênica do caixão como dispositivo de entrada e saída de cenas merece registro. Ela resolve o paradoxo central do texto: a morte é onipresente mas nunca pesada demais. Quando o caixão vira porta, ele é simultaneamente o objeto mais grave possível e elemento de comédia física. Passamos a ficar ansiosos para descobrir o que vem a seguir, o que num espetáculo sobre a morte é a mais precisa das conquistas dramatúrgicas.

A amizade entre Socorro e Zaninha é o motor do espetáculo, e aqui As Centenárias ocupa um lugar singular na dramaturgia brasileira. Amizade feminina tratada sem competição, sem homem como eixo, sem hierarquia entre as duas. Duas mulheres muito velhas que continuam funcionando juntas no mundo, dependendo uma da outra para existir. Newton Moreno confia que isso sozinho sustenta a ação, e tem razão.
Daqui a vinte anos esta peça será outra coisa. Será história, não mais memória. Por ora, ainda é as duas coisas ao mesmo tempo, e é isso que faz desta montagem um acontecimento.
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BOARO, Márcio. As Centenárias de Newton Moreno no SESC Bom Retiro: As Centenárias: memória, ofício e a amizade como pacto de vida. Os Que Lutam, São Paulo, 15 maio 2026. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/as-centenarias-de-newton-moreno-no-sesc-bom-retiro.
Boaro, M. (2026, 15 de maio). As Centenárias de Newton Moreno no SESC Bom Retiro: As Centenárias: memória, ofício e a amizade como pacto de vida. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/as-centenarias-de-newton-moreno-no-sesc-bom-retiro
BOARO, Márcio. "As Centenárias de Newton Moreno no SESC Bom Retiro: As Centenárias: memória, ofício e a amizade como pacto de vida." Os Que Lutam, 15 de maio de 2026. https://osquelutam.com.br/criticas/as-centenarias-de-newton-moreno-no-sesc-bom-retiro.
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As Centenárias
2026 · São Paulo
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