
Foto: Helô Bortz
Asas de Pano — a memória como dramaturgia do impossível
Por Márcio Boaro
Em Asas de Pano, o conflito doméstico não é tratado como “tema” — é tratado como dispositivo de pressão. A peça parte de uma situação reconhecível (uma reorganização familiar diante da autonomia de uma filha) para produzir algo mais raro: um mecanismo em que forma e conteúdo se tornam inseparáveis. O que se desestabiliza em cena não é apenas uma relação: é um sistema inteiro de vida, mantido em pé por controle, silêncio e manutenção.
A decisão formal mais potente é transformar a memória em ação. O espetáculo não recorre ao flashback confortável nem à “explicação psicológica” como atalho. Em vez disso, encontra um caminho teatral: a memória surge como interrupção, como retorno técnico, como insistência — uma presença que atravessa o presente e o reorganiza. Não é o passado “contado”; é o passado operando. E quando o passado opera, ele não vem para informar: vem para cobrar elaboração.

O telefone como máquina de tempo
O telefone, aqui, é mais do que um objeto cênico: é uma máquina de temporalidade. Ele instala um regime de cena em que o antes não está atrás — está ao lado, em paralelo, tocando. Ao escolher esse canal cotidiano (doméstico, banal, reconhecível), a peça dá uma materialidade muito precisa para algo que a gente sabe por experiência: certos passados não se comportam como lembrança, e sim como chamada. A dramaturgia transforma essa experiência em forma teatral, evitando o moralismo e evitando também o psicologismo explicativo.
Nesse ponto, entra uma observação minha, não como chave “declarada” pela autoria ou direção: sob meus olhos, há uma afinidade formal com o campo do drama de memória associado a Tennessee Williams, sobretudo em The Glass Menagerie (O Zoo de Vidro). Não no sentido de influência a ser “provada”, mas no sentido de parentesco de procedimento: a quebra da linearidade para afirmar que o passado não passa — ele muda de modo. Em Williams, a memória reorganiza o real; aqui, a memória retorna por um canal técnico e cria um presente contaminado. Em ambos, não se trata de cronologia: trata-se de verdade emocional construída em cena.
A casa como linguagem de controle
O apartamento e a rotina aparecem como extensão do corpo: organização, precisão, previsibilidade. Mas o espetáculo não celebra isso como virtude; ele tensiona isso como sintoma. A casa não é cenário; é argumento. Uma dramaturgia dialética reconhece esse movimento: o que parece ordem pode ser defesa; o que parece zelo pode ser pânico; o que parece maturidade pode ser estratégia de sobrevivência.
A peça trabalha numa zona particularmente delicada: não demoniza a necessidade de controle (seria fácil), mas revela seu custo. O que se vê é uma vida construída com rigor para que algo essencial não precise ser tocado. A organização torna-se máscara — e toda máscara, quando bem feita, não cai: ela racha. O espetáculo entende que a rachadura é mais teatral do que a queda.
O segredo não como “ponto de virada”, mas como motor
Outro acerto é a recusa do efeito barato. A peça avança por camadas, mas não para produzir surpresa; para produzir compreensão. Cada camada não é apenas “mais informação”: é um deslocamento do eixo, uma alteração na forma como a plateia lê gesto, pausa, insistência, recusa. A dramaturgia faz com que o público perceba que há um núcleo organizando a superfície muito antes de conhecer suas coordenadas.
É aí que o segredo deixa de ser conteúdo e vira força. Ele não aparece como “o que aconteceu”, mas como o que organizou a vida. Em peças assim, a verdade não tem função de confissão; tem função de estrutura. A pergunta mais importante não é “qual é o fato”, e sim: que tipo de existência é fabricada quando um fato não é elaborado? A peça responde não com tese, mas com forma: a vida vira manutenção, a linguagem vira contorno, a relação vira estratégia.
A comunicação impossível: entre vivos, performance; na memória, fissura
Uma das contradições centrais encenadas é a da comunicação. Entre vivos, o diálogo é atravessado por defesa, por disputa de narrativa, por tentativas de preservar a forma. A palavra vira instrumento — e quando a palavra vira instrumento, ela perde a possibilidade de encontro. Já quando a memória retorna, abre-se um tipo de fala que não é “mais verdadeira” por ser sobrenatural; é mais verdadeira porque não precisa mais vencer. Ela pode apenas existir como fissura.
Essa escolha dramatúrgica é inteligente porque desloca o centro ético do espetáculo. A peça não está interessada em julgar personagens como “boas” ou “más”; ela está interessada em mostrar como certas estruturas afetivas produzem uma ética torta — e como essa ética, sustentada por décadas, se torna a própria casa.
Direção e atuação: contenção como potência
Esse material pede precisão — e o espetáculo parece entender isso. A direção de Otávio Martins trabalha com tempo de maturação: há domínio do ritmo, do quando dizer, do quando calar, do quando permitir humor como válvula (sem virar anestesia). O tom não escapa para o melodrama porque a peça se apoia numa operação mais difícil: a contenção.
No centro, Eliete Cigaarini sustenta o duplo movimento que essa dramaturgia exige: máscara e rachadura. A atuação precisa fazer o controle parecer real (não caricato) e, ao mesmo tempo, deixar entrever o que vaza por baixo. Anette Naiman injeta tensão e presença como força de passado, e Gabriela Cigarini ancora o presente com uma materialidade geracional que impede o espetáculo de virar apenas “museu de memórias”: há presente em disputa, corpo vivo em cena, exigência de autonomia.

O que a peça faz, afinal
Asas de Pano não é um espetáculo que se esgota em “história bem contada”. Ele se afirma como dramaturgia do íntimo porque entende que o íntimo também tem estrutura — e que, muitas vezes, essa estrutura é social no sentido mais profundo: não como slogan, mas como forma de vida herdada, como pacto de silêncio, como pedagogia do que pode ser dito.
O telefone toca e a peça nos lembra: a memória não é uma lembrança bonita guardada numa gaveta; ela é uma força que, quando não encontra elaboração, encontra retorno. E o teatro, faz exatamente isso: dá forma ao retorno para que ele deixe de ser destino e possa, enfim, virar pensamento.
Por que isso pega tão fundo hoje
Essa pergunta toca no cerne do que faz a peça ressoar justamente porque seu mecanismo parece de outra era. A resposta está no paradoxo: quanto mais virtual e acelerado se torna o cotidiano, mais aguda é a fome por uma experiência que force uma desaceleração ritualística e investigue, com ferramentas humanas rudimentares (a voz, o silêncio, o corpo presente), as feridas que a tecnologia não cura.
O estilo psicológico clássico, com sua paciência e sua escavação das camadas do tempo, não é um anacronismo. É um antídoto. A plateia paulistana, imersa em um presente contínuo e esvaziado de elaboração, é justamente a plateia ideal para uma dramaturgia que transforma o passado não em nostalgia, mas em pressão concreta sobre o agora.
A emoção intensa que você descreve não vem de uma identificação simplista com "personagens boas". Vem do reconhecimento, no escuro da plateia, de uma estrutura afetiva familiar: o controle que se disfarça de cuidado, o silêncio que se vende como paz, a vida administrada para que uma verdade não estrague a mobília. Só que hoje, em meio a discursos vazios e conexões superficiais, a honestidade brutal dessa investigação soa como um luxo necessário.
Portanto, a peça faz efeito não apesar de seu estilo, mas por causa dele. Ela oferece o que o algoritmo e a interface não podem dar: a sensação de que um segredo de família, lentamente desvendado em tempo real diante de você, é mais relevante para entender o mundo do que qualquer feed de notícias.
A forma que salva é a mesma que enlouquece; o abrigo que protege é a jaula que define.
Ficha técnica
- Autoria: Eliete Cigaarini
- Supervisão dramatúrgica: Otávio Martins
- Direção artística: Otávio Martins
- Assistente de direção: João Pedro Martins
- Direção de arte: Armando Filho
- Figurinos: Eliete Cigaarini
- Criação de luz: Domingos Quintiliano
- Sonoplastia: João Pedro Martins
- Operador de luz: Luis Henrique Santos
- Elenco: Eliete Cigaarini; Anette Naiman; Gabriela Cigarini
- Fotografia: Helô Bortz
- Designer gráfico: Patrícia Scotolo
- Social media: Gabriela Cigarini
- Cenógrafo: Marcelo Andrade
- Costureira: Judite Lima
- Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro
- Consultoria de comunicação: Parceria6 Ass. de Comunicação
- Produção e realização: Creartes Prod. Artísticas Ltda.
Citar este texto↓
BOARO, Márcio. Asas de Pano — a memória como dramaturgia do impossível. Os Que Lutam, São Paulo, 8 fev. 2026. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/asas-de-pano-a-memoria-como-dramaturgia-do-impossivel.
Boaro, M. (2026, 8 de fevereiro). Asas de Pano — a memória como dramaturgia do impossível. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/asas-de-pano-a-memoria-como-dramaturgia-do-impossivel
BOARO, Márcio. "Asas de Pano — a memória como dramaturgia do impossível." Os Que Lutam, 8 de fevereiro de 2026. https://osquelutam.com.br/criticas/asas-de-pano-a-memoria-como-dramaturgia-do-impossivel.
Rede desta crítica
Continue pelo arquivo a partir deste espetáculo, das pessoas da ficha e de outras leituras próximas.
Espetáculo
Asas de Pano
2026
Pessoas desta montagem
Direção
Ficha em expansão
Esta crítica ainda não tem uma direção identificada na ficha técnica publicada.
Leituras próximas
Continue no arquivo
Ainda não há outras leituras ligadas a este espetáculo no mesmo arquivo.
Comentários e contribuições: editorial@osquelutam.com.br