
Rafael Mafra
Até mesmo eu tentei estar aqui
ABYSMO, com Alessandra Queiroz. Direção de Thiago Reis Vasconcelos, codireção de Flávia Ulhôa, dramaturgia de Alessandra Queiroz e Thiago Reis Vasconcelos. Companhia Antropofágica, no Teatro Pyndorama.
Por Márcio Boaro
Uma mulher está debaixo de jornais e mapas. Quando emerge deles, está nua. A imagem, cenário de Flávia Ulhôa e Thiago Reis Vasconcelos, é direta o bastante para se sustentar antes de qualquer conceito: antes que Alessandra Queiroz comece a organizar pela palavra o que pensa do mundo, o mundo está sobre ela, convertido em informação, notícia, território representado, papéis que recobrem um corpo. Ela sai dali, veste um vestido escuro e começa a falar.

ABYSMO, primeiro solo de Alessandra Queiroz na Companhia Antropofágica, parte da pergunta sobre o que significa falar e contar alguma coisa para alguém e aproxima informação, conhecimento e experiência numa dramaturgia construída pela justaposição de textos, documentos, referências históricas, literatura e elementos autobiográficos. O release chama esse procedimento de “palimpsesto vocal” (palimpsesto é o pergaminho raspado e reescrito, em que a escrita anterior continua aparecendo por baixo da nova) e fala em “montagem literária”. Os termos não estão errados, mas resumem em conceitos uma operação que, em cena, é muito mais concreta: uma atriz vai colocando diante do público algumas das coisas de que é feita.
Alessandra está presente desde o início. Não há uma sucessão de personagens atrás das quais a atriz desaparece para retornar ao final como ela mesma. O movimento é outro. Primeiro, Alessandra encontra Cassandra. Depois Rosa Luxemburgo entra nessa relação e uma começa a contaminar a outra: Rosa, Cassandra, Rosa Cassandra, Cassandra Rosa. Outras mulheres vão sendo acrescentadas, outras palavras, experiências, estados e lembranças, até que o que a dramaturgia apresentou em fragmentos possa ser reunido na fala final. Não se trata de retirar máscaras para descobrir quem estava escondida debaixo delas, mas de acompanhar a composição de uma mulher por aquilo que escolheu carregar.
Isso importa porque Alessandra não chega ao solo como uma atriz à procura de uma personagem que possa sustentar sozinha. Depois de 24 anos de Companhia Antropofágica, numa trajetória inteira ligada à construção coletiva do grupo, há uma atriz madura o bastante para colocar em cena suas possibilidades, não como demonstração de versatilidade, mas como diferentes maneiras de estar diante do público. Entre blackouts, a luz de Zernesto Pessoa retorna em cores e intenções diferentes sobre o mesmo vestido escuro de Ruth Melchior; ela fala, dança sozinha, em outros momentos parece dançar com alguém que não está ali, passa pela alegria, pela tristeza, pelo pensamento, pela memória. O corpo permanece enquanto os estados se modificam. A economia é uma escolha da direção de Thiago Reis Vasconcelos, com codireção de Flávia Ulhôa: pouca coisa em volta da atriz, para que a variação venha dela.

Cassandra oferece a primeira chave dessa construção. A mulher que vê o que os outros não veem, anuncia a catástrofe e não é ouvida. Mas Cassandra não permanece intacta quando Rosa Luxemburgo aparece. A profecia encontra a história. O que Rosa sabe não vem de dom dos deuses; vem de tentar compreender as forças de seu próprio tempo e agir sobre elas. Quando a dramaturgia aproxima as duas e chega a “Rosa Cassandra” e “Cassandra Rosa”, não está apenas colocando duas referências lado a lado. Cassandra oferece uma forma para olhar Rosa, enquanto Rosa devolve à antiga profetisa uma dimensão histórica e política.
Outras mulheres acrescentam outras possibilidades. Safo traz a poesia. Julieta, a personagem. Marguerite Duras, a autora e uma maneira própria de olhar o mundo. O trecho de Julieta é dito em inglês; suas palavras chegam pela língua em que Shakespeare as escreveu, sem a mediação das escolhas de um tradutor. São presenças de naturezas diferentes, um mito, uma revolucionária marxista, uma personagem, uma poeta, uma escritora, e seria empobrecedor obrigá-las a significar a mesma coisa. O que as aproxima é Alessandra.
É nesse sentido que ABYSMO está menos interessado em apresentar uma coleção de grandes mulheres do que em mostrar algumas das vozes através das quais uma mulher construiu sua maneira de olhar o mundo. E ao lado das referências literárias, históricas e políticas aparecem elementos íntimos, sem que o espetáculo precise mudar de assunto para acolhê-los. Quando Alessandra fala da mãe, que aos 74 anos se tornou uma senhora sorridente e passou a necessitar de cuidados em razão do Alzheimer, a doença não se transforma no novo centro da narrativa nem é convocada para produzir um grande momento emocional. A mãe aparece como uma dessas marcas que constituem uma vida, ao lado da literatura, da política, do teatro, das companheiras, das personagens, dos pensamentos.
Há nisso uma dimensão feminina muito forte que não depende de transformar o espetáculo numa investigação abstrata sobre o que é ser mulher. O feminino aparece como lugar de onde Alessandra olha. Cassandra, Rosa, Julieta, Safo e Duras não fornecem uma definição de mulher; oferecem possibilidades diferentes de conhecer, desejar, escrever, lutar, falar. E a experiência íntima acrescenta a essas mulheres reconhecidas pela história aquelas que participam de uma vida sem precisar entrar para a história.

A imagem inicial diz tudo isso melhor do que “palimpsesto vocal”. Ou antes: é o conceito tornado literal, camadas de papel sobre alguém que continua aparecendo por baixo. Por um instante há um corpo sob aquilo que pretende informar e representar o mundo. Mas ABYSMO não apresenta esse corpo como uma essência verdadeira que estaria escondida sob as representações. Alessandra está ali desde o princípio e, a partir dali, começa a somar: veste-se, fala, lembra, interpreta, dança, cita, pensa. A mulher que vemos não existe fora dessas relações; é feita também delas.
A repetição participa desse procedimento. ABYSMO retorna a imagens, ideias e formulações que às vezes parecem já suficientemente compreendidas, e há momentos em que a insistência pode produzir a sensação de que o espetáculo reafirma o que já disse. Mas é também por repetição que as camadas se sedimentam. Uma palavra que inicialmente pertence a Cassandra reaparece modificada por Rosa; o que parecia fragmento encontra mais tarde outra voz; pequenas formulações retornam até que reconhecemos, no final, que a última fala vinha sendo construída diante de nós desde o começo.
Essa forma de acumulação encontra a própria questão que atravessa o espetáculo: a distância entre informação e experiência. Um jornal registra um acontecimento, um mapa organiza um território, um documento preserva um fato. Mas o que acontece quando esses materiais atravessam uma vida não pode ser reduzido ao que informam. Uma atriz, por profissão, passa a vida tentando fazer outra coisa com a palavra: falar alguma coisa para alguém e fazer com que, por algum tempo, essa palavra ganhe corpo.
Está aí uma das contradições mais bonitas de ABYSMO. Depois de uma trajetória construída no teatro de grupo, Alessandra Queiroz chega ao solo sem transformar o indivíduo numa unidade autossuficiente. Quando finalmente fica sozinha, traz uma multidão consigo. O coletivo não é aquilo que precisou abandonar para conseguir dizer “eu”; é parte daquilo que tornou esse eu possível.

Por isso a fala final não surge como revelação. Nós já conhecemos Alessandra. Já a ouvimos junto de Cassandra, depois de Rosa, depois das outras. O que acontece no final é que a dramaturgia reúne aquilo que passou o espetáculo inteiro acumulando:
“O espetáculo terminou.
Meu nome é Alessandra
Fui Rosa, Cassandra,
Rosa Cassandra e Cassandra Rosa
Fui Julieta,
Fui Marguerite Duras
Fui eu
Até mesmo eu tentei estar aqui.”
Não é a descoberta de uma Alessandra verdadeira que finalmente aparece depois de todas as personagens. Ela esteve ali o tempo inteiro, e nenhuma dessas mulheres a esconde; cada uma amplia o que ela pode ser diante de nós. A última fala não revela quem Alessandra é. Reúne, por um instante, algumas das muitas mulheres que cabem quando ela diz “eu”.
Ficha Técnica
Temporadas
Citar este texto↓
BOARO, Márcio. Até mesmo eu tentei estar aqui: ABYSMO, com Alessandra Queiroz. Direção de Thiago Reis Vasconcelos, codireção de Flávia Ulhôa, dramaturgia de Alessandra Queiroz e Thiago Reis Vasconcelos. Companhia Antropofágica, no Teatro Pyndorama.. Os Que Lutam, São Paulo, 1 out. 2026. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/ate-mesmo-eu-tentei-estar-aqui-abysmo.
Boaro, M. (2026, 1 de outubro). Até mesmo eu tentei estar aqui: ABYSMO, com Alessandra Queiroz. Direção de Thiago Reis Vasconcelos, codireção de Flávia Ulhôa, dramaturgia de Alessandra Queiroz e Thiago Reis Vasconcelos. Companhia Antropofágica, no Teatro Pyndorama.. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/ate-mesmo-eu-tentei-estar-aqui-abysmo
BOARO, Márcio. "Até mesmo eu tentei estar aqui: ABYSMO, com Alessandra Queiroz. Direção de Thiago Reis Vasconcelos, codireção de Flávia Ulhôa, dramaturgia de Alessandra Queiroz e Thiago Reis Vasconcelos. Companhia Antropofágica, no Teatro Pyndorama.." Os Que Lutam, 1 de outubro de 2026. https://osquelutam.com.br/criticas/ate-mesmo-eu-tentei-estar-aqui-abysmo.
Rede desta crítica
Continue pelo arquivo a partir deste espetáculo, das pessoas da ficha e de outras leituras próximas.
Espetáculo
ABYSMO
2026 · São Paulo
Pessoas desta montagem
Direção
Thiago Reis Vasconcelos
78 colaboradores em comum já mapeados no arquivo.
Outros trabalhos da direção
Leituras próximas
Continue no arquivo
Ainda não há outras leituras ligadas a este espetáculo no mesmo arquivo.
Comentários e contribuições: editorial@osquelutam.com.br