
Felipe Penteado
Betrayal
Betrayal, de Harold Pinter, no Teatro UOL: crítica
Betrayal, de Harold Pinter, no Teatro UOL: crítica
uma anatomia da intimidade, da mentira e do pacto entre homens
Harold Pinter / direção Lavínia Pannunzio / Teatro UOL
A pergunta que Betrayal deixa no ar não é quem traiu quem. É se alguma coisa, em algum momento, foi verdadeira o suficiente para merecer o nome de traição.
Escrita por Harold Pinter em 1978, Betrayal acompanha Emma, seu marido Robert e o amigo dele, Jerry, ao longo de nove anos de adultério, amizade e ocultação. Mas seu grande golpe formal está na estrutura: a peça começa depois do fim e caminha para trás, de 1977 até 1968. O uso de flashbacks é recurso corrente na dramaturgia, habitualmente convocado para esclarecer motivações ou preencher lacunas narrativas. Aqui, porém, ele é radicalizado e se torna a própria engrenagem da peça. A cada nova cena, o passado não apenas explica o que já vimos: adensa as relações, reorganiza o sentido do que foi apresentado e amplia o interesse pelo passo seguinte. Paradoxalmente, ao recuar no tempo, a peça avança em intensidade. Não se trata de um truque narrativo, mas de um procedimento dramático que transforma radicalmente o que o espectador faz com cada cena: em vez de acumular informação para entender o que virá, carrega o peso do que já sabe enquanto assiste ao que ainda não aconteceu.
Na montagem de Lavínia Pannunzio, em cartaz no Teatro UOL com Luiza Curvo, Leonardo Brício e Diego Machado, na tradução de Luis Frias, a peça funciona de modo peculiar: começa aparentemente encerrada, sem pulso, como se toda possibilidade dramática já tivesse se esgotado antes de a plateia sentar. Os atores já estão em cena quando o público entra, numa escolha que não é decorativa. Estabelece desde o início uma proximidade incômoda, como se a distância segura entre quem olha e quem é olhado já tivesse sido negociada antes e o acordo fosse desfavorável ao espectador. À medida que o tempo recua, o espetáculo vai ganhando densidade. O que parecia cinza revela fissuras, e as fissuras revelam o quanto já estava rachado desde o princípio. É o movimento inverso da revelação dramática clássica: não se avança para a crise, recua-se até descobrir que a crise não tem origem localizável.
O elenco sustenta bem essa exigência. Nesta montagem, quase tudo depende de subtexto, de pausas que precisam ter peso sem ter explicação, de uma temperatura emocional tão controlada que mal parece se mover. Curvo, Brício e Machado operam nesse registro com consistência: nenhum dos três força a nota onde Pinter deliberadamente retira o volume. A densidade real das relações em cena se constrói por acumulação discreta, não por gesto enfático. Vale notar que esse tipo de atuação depende também de como o texto chega ao ator: a tradução de Luis Frias preserva os cortes e as reticências que fazem da fala pinteresca um instrumento de pressão, não de expressão. Em português, o silêncio precisa estar escrito antes de poder ser interpretado.
Lavínia Pannunzio opta por cenário minimalista que não compete com o texto e acerta ao preservar os elementos e datas originais: figurino e móveis remetem à época sem caricatura, produzindo normalidade histórica em vez de fantasia de época. Essa escolha tem consequência política. Olhar para essas relações sem filtro contemporâneo obriga a compreender as questões dos anos 1970 em seu próprio contexto, o que torna mais visível o quanto certas violências puderam ser banalizadas mesmo quando eram evidentes.
Emma, na construção de Luiza Curvo, não é uma personagem diminuída. É talvez a figura mais plena do triângulo: inteligente, presente, capaz de sustentar ambiguidade sem perder coerência interna. A atriz e a direção sabem iluminar com precisão duas dimensões distintas da personagem. Na cena com Robert em Veneza, Curvo concentra a violência muda de uma mulher que percebe o alcance da estrutura patriarcal que a cerca, sustentando a humilhação sem perder inteligência nem densidade. No encontro com Jerry no pub, surge mais contida e melancólica, dona de uma maturidade afetiva que torna ainda mais complexa sua presença em cena. Em nenhum dos dois momentos a personagem é reduzida: a vulnerabilidade e a espessura dramática coexistem, e é essa coexistência que torna o argumento político da peça inescapável. Se Emma fosse fraca ou instável, a misoginia que a atravessa poderia ser lida como consequência de alguma fragilidade sua. Mas não há fragilidade a invocar. O que a peça expõe é que nem mesmo uma mulher assim, tão plena, escapa de ser reduzida, disputada ou silenciada. A brutalidade não recai sobre ela por acaso ou por defeito: recai porque é isso que aquele universo masculino faz sistematicamente, independentemente de quem seja a mulher.
Se no texto original Emma é a única figura feminina, a montagem brasileira introduz uma segunda presença de mulher, sem nome, vivida por Miranda Diamant. Não se trata apenas de preencher a cena, mas de produzir um comentário silencioso sobre o presente: essa figura suplementar parece insinuar que, hoje, o feminino já não aceita com a mesma passividade o lugar de ausência, isolamento ou submissão que a estrutura masculina historicamente lhe reservou.
Isso se torna mais nítido quando os dois homens se confrontam diretamente, na cena do squash, por exemplo, e o desejo não se dirige à presença feminina: dirige-se à rivalidade, à posse e ao reconhecimento entre eles. Emma não é amada nem traída num sentido pleno: é o terreno sobre o qual Robert e Jerry travam uma disputa cujo objeto real é a hierarquia entre eles. Robert é o mais acomodado dos três: habita com naturalidade o mundo masculino, entende suas vantagens e gosta delas. Não há nele vilania declarada, o que o torna, à sua maneira, o mais revelador. A violência daquele universo não se sustenta por maldade excepcional, mas por conforto ordinário. A misoginia emerge não como desvio de caráter individual, mas como elemento tão naturalizado que dispensa justificativa ou sequer consciência.
O momento em que isso fica mais exposto é a cena em que Robert admite ter batido em Emma uma ou duas vezes, e a conversa segue sem escândalo proporcional. O mais perturbador talvez não seja apenas a confissão de Robert, mas o silêncio de Jerry. Porque esse silêncio não é equivalente ao de Emma: enquanto nela ele remete à violência sofrida e à contenção imposta, nele ele aparece como forma de adesão passiva ao pacto entre homens. Jerry não precisa defender Robert para participar da banalização do abuso; basta não reagir. Ao despojar a confissão de qualquer peso trágico ou enfático, Pinter torna a cena mais sinistra do que qualquer confronto aberto seria. A brutalidade contra Emma aparece como ruído lateral enquanto a atenção dramática dos homens permanece centrada na amizade ferida, no orgulho e na competição entre eles.
É aí que a escrita de Pinter mostra sua precisão mais dura. As falas têm a textura do cotidiano, mas carregam uma opacidade que nunca se resolve inteiramente. O silêncio pesa tanto quanto a fala. A violência, quando aparece, não pede licença nem se justifica. Nada vem embalado para facilitar o julgamento do público. Por isso a peça exige precisão extrema: qualquer excesso de ênfase na atuação, qualquer sublinhado cenográfico desnecessário, e o mecanismo desanda.
Há um momento em que esse mecanismo atinge seu ponto mais alto nessa montagem. Jerry, desprotegido de suas defesas habituais, declara o que sente, e Leonardo Brício sustenta o instante sem ampará-lo em nenhum gesto que o explique. O amor se anuncia já atravessado por uma sensação de perda. Pinter transforma a declaração em vestígio antecipado: não vemos apenas um homem dizendo que ama, mas o momento frágil em que uma verdade emocional ainda é possível, antes de ser corroída pelo tempo, pela mentira e pelos pactos que a peça inteira expõe. É o único instante em que o estranhamento cede e algo genuíno atravessa a cena, e por isso talvez seja o mais perturbador de todos.
Betrayal está em cartaz no Teatro UOL, às sextas, sábados e domingos, às 20h.
Ficha Técnica
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