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Dibuk - O Musical
Dibuk, o Musical, no Teatro Sérgio Cardoso: crítica
Em um teatro de 700 lugares, com 31 atores em cena, Dibuk, o Musical se apresenta como um espetáculo de grande escala. Mas o que está em jogo ali não é apenas a dimensão da produção. O que se move em cena é a presença de uma tradição que retorna ao palco paulista não como citação, mas como corpo.
A montagem revela um cuidado raro de elaboração. A presença de Luis Alberto de Abreu na consultoria não é um detalhe lateral. Trata-se de um autor profundamente ligado à construção de narrativas que atravessam memória, tradição e formas comunitárias de transmissão. Sua participação sugere que o espetáculo não busca apenas adaptar uma lenda judaica ao formato do musical, mas encontrar uma mediação capaz de sustentar sua espessura ritual, simbólica e histórica.

O elenco numeroso foi composto com critério. Ao lado de intérpretes do campo do teatro musical, a direção convocou atores com trajetória consolidada no teatro paulistano. Essa escolha tem consequências cênicas precisas: há ali quem sustente personagem, comunidade e conflito dramático dentro da linguagem do musical, o que não é trivial. A cena não se reduz à sucessão de números.
A cenografia opera por módulos de madeira de vários metros de altura que se reconfiguram ao longo do espetáculo. No primeiro ato, constroem um universo. No segundo, que ocorre em outra chave, transformam-no. A qualidade dessas estruturas é notável: dão conta do palco sem submetê-lo. A escala existe, mas não esmaga a cena.
As coreografias permanecem dentro de uma tradição acrobática judaica e aparecem nos momentos dramaturgicamente corretos, contribuindo para compor, não para ornamentar. E a música não funciona apenas como gênero. O klezmer carrega consigo uma cartografia da diáspora, uma linguagem em que euforia e luto coexistem no mesmo compasso. Adotá-lo como base não é escolha decorativa. É escolha de memória.

É verdade que o musical, como forma, impõe velocidade e resolução, o que pode esfriar o caráter ritual da história. A direção de Marcelo Klabin demonstra consciência dessa tensão e procura dosá-la. O resultado não é a abolição do problema, mas um espetáculo que negocia o tempo do rito com o tempo do número musical, sem se render completamente a nenhum dos dois.
Encenar essa memória hoje não é um gesto neutro. O teatro ídiche que existiu em São Paulo articulava comunidades de imigrantes, formava plateias e produzia modos específicos de relação com o público. Não era curiosidade histórica: era camada constitutiva da vida cultural desta cidade. Trazê-la de volta à cena, num momento em que a crítica às políticas do Estado de Israel se tornou tema incontornável do debate público, exige cuidado para que não se confundam dimensões distintas.
A discordância em relação às ações de um Estado não pode contaminar a leitura de uma cultura, de uma fé, de uma diáspora ou de uma tradição ética. Criticar políticas de Israel não é antissemitismo. A própria história judaica, marcada pela perseguição, pelo exílio, pela transmissão e pela sobrevivência, contém valores que não podem ser reduzidos à lógica de nenhum poder estatal. O teatro, nesse sentido, pode abrir um espaço mais complexo do que a disputa imediata: um espaço em que a memória de um povo não seja sequestrada pela política de um governo.
A história que sustenta a peça é simples e brutal. Um pacto é quebrado. Um casamento prometido não se realiza. O amor interrompido não encontra resolução no mundo dos vivos. A morte, longe de encerrar o conflito, o intensifica.
O dibuk, o espírito que se apega a um corpo vivo, não aparece como figura externa ou monstruosa. Ele é a continuidade de um vínculo que não pôde se cumprir. A possessão não é apenas invasão: é insistência. E quando esse momento chega em cena, atuação, luz e movimento convergem com precisão rara.

A comunidade tenta restaurar a ordem por meio do rito. O julgamento espiritual, o exorcismo, a tentativa de separar vivos e mortos são formas de recompor um equilíbrio que foi rompido. Mas a peça sugere que há algo que escapa a essa recomposição.
O que foi impedido em vida não desaparece com a morte.
O corpo feminino torna-se campo de disputa entre desejo e norma, entre promessa e interesse, entre aquilo que se vive e aquilo que se permite viver. O amor, submetido à lógica do contrato social, revela sua fragilidade diante de estruturas que o excedem. E, ao mesmo tempo, revela sua persistência.
Há, nesse ponto, uma dimensão política que não precisa ser explicada de fora. A jovem prometida em casamento não é apenas personagem romântica. Ela ocupa o lugar em que comunidade, família, pacto econômico, tradição religiosa e desejo se chocam. Seu corpo passa a carregar aquilo que a ordem social não conseguiu resolver. A possessão, portanto, não é apenas sobrenatural. É também a forma extrema de uma verdade impedida de ter lugar.

No fim, o que resta não é a restauração da ordem, mas a afirmação de que certos vínculos não se dissolvem. Eles atravessam a vida, a morte e as formas sociais que tentam contê-los.
O dibuk é o espírito que não encontra repouso.
Talvez o espetáculo nos lembre que certas tradições também não desaparecem. Permanecem à espera de um corpo onde possam voltar a existir.

Dibuk, o Musical está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, de quinta a domingo, até 31 de maio.
Ficha Técnica
Temporadas
Teatro Sérgio Cardoso
São Paulo
23 de abr. de 2026 – 31 de mai. de 2026
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OS QUE LUTAM. Dibuk, o Musical, no Teatro Sérgio Cardoso: crítica: o que retorna quando não pôde viver. Os Que Lutam, São Paulo, 24 abr. 2026. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/dibuk-o-musical-teatro-sergio-cardoso-critica.
Os Que Lutam (2026, 24 de abril). Dibuk, o Musical, no Teatro Sérgio Cardoso: crítica: o que retorna quando não pôde viver. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/dibuk-o-musical-teatro-sergio-cardoso-critica
Os Que Lutam. "Dibuk, o Musical, no Teatro Sérgio Cardoso: crítica: o que retorna quando não pôde viver." Os Que Lutam, 24 de abril de 2026. https://osquelutam.com.br/criticas/dibuk-o-musical-teatro-sergio-cardoso-critica.
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