
LABIRINTHOS 2.5 — o coro como máquina de pensar | Os que lutam
Por Márcio Boaro

Essa imersão no mundo antigo revela uma camada de significação mais profunda. Os mitos da Grécia de há três milênios, com sua beleza e brutalidade intrínsecas, não são uma exceção, mas parte de um cânone universal. Ao observá-los, é possível identificar as mesmas lutas fundamentais, os mesmos dilemas éticos e as mesmas estruturas de poder que ecoam nas mitologias de todos os continentes — dos orikis iorubás aos contos dos povos andinos, das epopeias sânscritas às narrativas dos povos originários da Oceania. O que essa similaridade demonstra é que a humanidade, em sua diversidade, compartilha uma linguagem simbólica comum para decifrar o mundo e a própria condição. A grande inovação dos gregos, com figuras como Ésquilo, Sófocles e Eurípides, não foi criar mitos “mais ricos”, mas ter transformado essas narrativas orais em teatro. Eles institucionalizaram o espaço onde o mito deixava de ser apenas uma história contada para se tornar um objeto de análise pública. A arena teatral tornou-se, assim, o primeiro fórum de crítica e reflexão sistemática sobre as tradições que moldavam a sociedade. Foi um salto do ritual para o debate.
É nesse contexto que a principal escolha de LABIRINTHOS 2.5 — recolocar o coro no centro — ganha todo o seu sentido. Não se trata de uma homenagem arqueológica, mas de um gesto de método radical: devolver ao teatro sua função pública, isto é, a capacidade de converter fábula em análise. O legado mais crucial do teatro grego é, sem dúvida, a criação do coro. Mais do que um conjunto de vozes, ele era a personificação da comunidade, a consciência coletiva que observava, interrogava e comentava as ações dos protagonistas. Era o mecanismo que forçava o público a não apenas sentir, mas a julgar.

A dramaturgia de João Anzanello Carrascoza, construída a partir de fragmentos de duas tragédias perdidas de Eurípides (Theseus e Kretes), traz o mito para a cena com essa ambição. Não se trata de “atualizar” Minos com um decalque contemporâneo, e sim de mostrar como o próprio mito contém uma técnica de leitura do poder. O rei que recebe de Poseidon um touro branco, promete o sacrifício e não cumpre — e depois administra o monstro que nasce desse crime — sabe operar com o medo como linguagem. O labirinto, nesse sentido, é menos arquitetura que condição política: uma organização de corredores, bloqueios e sombras que gere o trânsito dos corpos e afeta a própria possibilidade de ver.
A direção de Leonardo Antunes confere a esse coro um estatuto preciso. Não há massa indistinta acompanhando o “drama dos heróis”. Há uma entidade que pensa em cena e ensina a plateia a pensar: organiza o tempo (marca entradas e suspensões), dá foco (aponta causas e consequências), impede que a emoção nos arraste para a passividade. A cenografia de Leonardo Antunes e Márcia Moon acerta ao recusar ilustrar corredores de pedra, optando por compor planos de luz, diagonais de fluxo e campos de sombra. O espaço aqui não descreve; argumenta.
A música, assinada por Jean Pierre Kaletrianos e pelo próprio Antunes, é executada ao vivo — adufes, violino e uma engenhosa “orquestra de aquários”. Crucialmente, o som não narra o que a cena já mostra; ele pensa com ela. A alternância entre fala e canto, entre português e grego, produz um estranhamento que nos obriga a escutar as engrenagens do mito. O elenco sustenta com vigor esse desenho, transitando entre a respiração coletiva e as protagonizações episódicas. O figurino de Miko Hashimoto, com uma economia de sinais que diferencia funções sem gritar, libera a dramaturgia para operar na exposição das contradições.
Fotos: João Maria da Silva JúniorEm LABIRINTHOS 2.5, a disputa entre Desejo e Lei não é um melodrama moral; é um mecanismo social. A “Nova Ordem” a que o espetáculo alude nasce da disputa pela máquina que administra corpos e afetos. Se há monstro, quem o alimenta? Se há labirinto, quem desfruta dos seus corredores?
Portanto, o verdadeiro potencial do teatro, desde a sua gênese, é ser uma ferramenta para questionar, e não apenas para aceitar. A busca pelas origens não é uma mera curiosidade histórica, mas um mergulho nas fundações da autorreflexão humana. A ENERGÓS, ao apostar num teatro que devolve trabalho à plateia, lembra que pensar dá trabalho — e é um prazer. A temporada gratuita e as sessões acessíveis são a extensão política desse gesto: se o coro recoloca o público no centro do julgamento, é coerente ampliar quem pode julgar.
Saí do Arthur Azevedo com a sensação nítida de que LABIRINTHOS 2.5 assume o teatro como processo aberto para afiar a ferramenta de pensar o poder. Num país que precisa reaprender a transformar emoção em critério, a peça nos devolve uma herança poderosa: a capacidade de, coletivamente, olhar para as estruturas que nos moldam e perguntar “como podemos fazer diferente?”. Não basta assistir; é preciso julgar.
Serviço
- Local: Teatro Arthur Azevedo — Av. Paes de Barros, 955, Mooca, SP
- Temporada: 19 a 28/09/2025 — Qui, Sex, Sáb às 21h; Dom às 19h
- Duração: 1h45 (com intervalo de 15 min) • Classificação: 14 anos
- Ingressos: gratuitos (Sympla; retirada presencial até 15 min antes)
- Acessibilidade: 25/09 (qui) com Libras e Audiodescrição
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BOARO, Márcio. LABIRINTHOS 2.5 — o coro como máquina de pensar | Os que lutam. Os Que Lutam, São Paulo, 23 set. 2025. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/labirinthos-2-5-o-coro-como-maquina-de-pensar-os-que-lutam.
Boaro, M. (2025, 23 de setembro). LABIRINTHOS 2.5 — o coro como máquina de pensar | Os que lutam. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/labirinthos-2-5-o-coro-como-maquina-de-pensar-os-que-lutam
BOARO, Márcio. "LABIRINTHOS 2.5 — o coro como máquina de pensar | Os que lutam." Os Que Lutam, 23 de setembro de 2025. https://osquelutam.com.br/criticas/labirinthos-2-5-o-coro-como-maquina-de-pensar-os-que-lutam.
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LABIRINTHOS 2.5
2025 · São Paulo
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