
Meu nome: Mamãe – A universalidade do gesto íntimo
Por Márcio Boaro
Resenha por Márcio Boaro
Entre causos nordestinos e memória íntima, Aury Porto constrói um gesto de resistência delicada diante da perda.

Em diferentes momentos da história recente do teatro e da dança, a força do corpo na construção da narrativa revelou-se com intensidade notável. Em 1997, na montagem de A Resistível Ascensão de Arturo Ui dirigida por Heiner Müller, o ator transmutava-se em cena: surgia como um cão e, lentamente, transformava-se em Hitler, através de uma fisicalidade precisa que amplificava visceralmente a narrativa de Brecht. Da mesma forma, Café Müller, criação emblemática de Pina Bausch, expõe a naturalização da violência física: ao longo da cena, uma personagem vai se acostumando aos gestos que a agridem, até que o impacto do trauma se dissolve na repetição dos movimentos. Em ambos os casos, o corpo torna-se veículo da história, comunicando com potência simbólica e emocional onde as palavras não chegam.
Essa tradição em que o corpo é meio expressivo primordial ressoa em Meu nome: Mamãe, solo de Aury Porto sob direção de Janaina Leite. Desde o início do espetáculo, o ator utiliza ações simples — os sons de um rádio antigo, um gole de café — para fazer emergir fisicamente a figura de sua mãe, que se delineia delicadamente a partir de sua composição corporal. A narrativa, construída entre a presença do ator e a personagem materna, revela-se na oscilação contínua entre esses dois estados.

A escolha de Aury Porto de convidar Janaina Leite para a direção do espetáculo está ligada à experiência da artista com formas teatrais que operam na interseção entre vida e cena. Meu nome: Mamãe pode ser compreendido como um exemplo maduro de teatro documentário autorreferencial, alinhado aos princípios praticados por Peter Weiss — especialmente no uso de relatos pessoais combinados a técnicas documentais, com forte incidência política e emocional.
Contudo, Janaina e outros artistas contemporâneos preferem situar esses trabalhos sob a denominação de autoficção, termo cunhado por Serge Doubrovsky em 1977 para definir narrativas que misturam experiências pessoais com liberdade ficcional, dissolvendo o compromisso com a exatidão dos fatos. Há, de fato, em Meu nome: Mamãe uma dimensão poética do íntimo que justifica essa leitura. Por simpatia a esse campo do sensível, aceita-se essa nomeação; ainda que o espetáculo também sustente, com igual legitimidade, uma leitura documental, mais alinhada ao desejo de incidir sobre o coletivo.
A construção cênica ultrapassa o relato individual. Os elementos apresentados — objetos cotidianos, histórias familiares, canções — não apenas compõem um retrato íntimo, mas desenham imagens que pertencem ao imaginário do interior brasileiro, em especial da cultura nordestina, com sua riqueza de gestos, afetos e narrativas. Referências como o engenho de rapadura, o preparo artesanal do alfinim, e o relato do pai — agricultor — que salvou animais durante uma enchente, afeiçoando-se a uma ovelha sobrevivente ao ponto de dizer que ela jamais seria sacrificada, entrelaçam pequenos épicos de resistência e ternura.

Entre essas histórias, há também o episódio da mulher “que havia perdido o juízo” e foi curada em uma única noite por um homem desconhecido, que, após suas rezas e rituais, partiu no dia seguinte sem deixar rastros. É nesse tipo de relato que o espetáculo alcança algo raro: o encontro dos causos nordestinos com imagens dignas do realismo fantástico latino-americano. O extraordinário se inscreve no cotidiano sem rompê-lo, como se a fabulação fosse uma forma legítima de memória e de verdade.
O espetáculo evoca a existência inteira de amor da mãe, a doçura da vida familiar e a ética do cuidado como valor compartilhado entre os filhos diante da fragilidade materna. São cenas que tocam na tessitura profunda da vida sertaneja — onde afeto e persistência formam um mesmo tecido — e que, mesmo enraizadas em experiências particulares, falam de um Brasil muitas vezes invisível, mas essencial.

Ao abordar uma questão estrutural da sociedade contemporânea — o cuidado com a velhice e com pessoas em condição de vulnerabilidade cognitiva, como no caso do Alzheimer —, o espetáculo toca uma das grandes urgências do nosso tempo. Em um país que envelhece rapidamente, sem políticas públicas suficientes para acolher essa população, Meu nome: Mamãe transcende a esfera íntima e convoca o coletivo à reflexão. Não se trata apenas da história de uma família, mas de uma interpelação sobre os modos de cuidado, presença e responsabilidade.
Meu nome: Mamãe é um gesto de amor, de resistência e de partilha. Um espetáculo necessário.
Ficha técnica
- Idealização, Texto e Atuação – Aury Porto
- Direção – Janaina Leite
- Dramaturgia – Claudia Barral
- Cenário e Figurino – Flora Belotti
- Trilha Sonora / Operação de Som e Vídeo – Rodolfo Dias Paes (DiPa)
- Desenho de Luz / Operação de Luz – Ricardo Morañez
- Preparação Corporal – Lu Favoreto
- Projeções – Felipe Ghirello
- Produção – Bia Fonseca e Aury Porto
Serviço
MEU NOME: MAMÃE
Rua Álvaro de Carvalho, 97, São Paulo – São Paulo
55 minutos | 14 anos | 80 lugares
Preços: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada)
Vendas pela plataforma Sympla
Ficha Técnica
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BOARO, Márcio. Meu nome: Mamãe – A universalidade do gesto íntimo. Os Que Lutam, São Paulo, 30 abr. 2025. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/meu-nome-mamae-a-universalidade-do-gesto-intimo.
Boaro, M. (2025, 30 de abril). Meu nome: Mamãe – A universalidade do gesto íntimo. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/meu-nome-mamae-a-universalidade-do-gesto-intimo
BOARO, Márcio. "Meu nome: Mamãe – A universalidade do gesto íntimo." Os Que Lutam, 30 de abril de 2025. https://osquelutam.com.br/criticas/meu-nome-mamae-a-universalidade-do-gesto-intimo.
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Meu nome: Mamãe
2025
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