
Thiago Altafini
O barro que caminha
A saga de uma família migrante e a cultura popular que nasce do movimento
Por Márcio Boaro
Quando Antonio Chapéu entra no palco como se chegasse num cortejo de Folia de Reis, já anuncia o que veremos: uma história feita de cultura popular. Ele conta a história de sua família, mas nunca apenas de forma particular — é também a nossa história. A família Silva é apenas uma porta de entrada. Atrás dela estão milhares de famílias brasileiras que deixaram suas terras, cruzaram estradas, cortaram cana, criaram filhos e transportaram consigo um patrimônio invisível de cantos, festas, crenças e modos de viver. Em Massapê, a memória individual revela sua dimensão coletiva. A história de uma família torna-se a história da formação cultural do Brasil.
Saí do teatro pensando que a história do Brasil é a história dos seus migrantes — e que é nas trocas do caminho que se mesclam e se moldam os novos matizes da nossa cultura popular. A família Silva sai do interior de Minas Gerais, onde vivia submetida a trabalhos análogos à escravidão, e chega há mais de sessenta anos aos canaviais de Piracicaba. O espetáculo acompanha essa travessia de forma linear, mas cada cena carrega características próprias do momento e do lugar onde a família estava: os nascimentos dos irmãos, as mortes, o nascimento do próprio Chapéu, narrados com a proximidade do que acontece a tantas famílias que procuraram a cidade. A linearidade aqui não é simplificação — é o tempo da caminhada.
Antonio Chapéu é um narrador com controle total do fluxo narrativo. Há algo de mestre de cultura popular nesse domínio: ele sabe quando acelerar o causo, quando deixar o silêncio trabalhar, quando convocar o canto. A encenação em semi-arena, com o público muito próximo, potencializa essa força. Não assistimos a uma apresentação: somos reunidos em volta de quem conta. A direção de Rogério Tarifa, que tem longa experiência com narrativas sensíveis — e que já havia dirigido o espetáculo dos 25 anos do grupo —, sabe que a delicadeza dos assuntos pede exatamente essa escala. Tarifa amarra a liberdade de linguagem num campo poético comum, sem jamais sufocar o narrador.

A música composta por Juh Vieira para o espetáculo não ilustra: estrutura. As tradições que atravessam a vida da família — a Folia de Reis, a catira, a congada, a moda de viola — não entram como números fechados, exibidos para a plateia como atrações folclóricas. Entram como citações breves, entrelaçadas na narrativa, do mesmo modo que entravam na vida: uma reza no meio do trabalho, um canto no meio do luto, uma dança no meio da festa. E o massapê do título não fica na metáfora — o barro está fisicamente em cena, matéria que se pisa e se molda, a mesma terra escura e fértil dos canaviais que deu nome ao chão onde a família foi recomeçar.
É nesse registro artesanal que Chapéu nos apresenta sua gente: a família Silva surge em bonequinhos, viajando num caminhão de brinquedo que o narrador conduz diante de nós. A escolha é de uma justeza comovente. A migração brasileira, tantas vezes monumentalizada ou vitimizada, aparece aqui na escala do brinquedo — que é a escala da memória de infância e a escala do ofício artesanal que atravessa a história da família. O narrador segura nas mãos o destino dos seus, como toda criança que já brincou de viagem num chão de terra. E o teatro lembra que não precisa de mais do que isso: um homem, um caminhãozinho e a palavra.
Ao assistir a Massapê, é difícil não lembrar de Mário de Andrade e Antonio Candido. Mário percorreu o interior registrando cantigas, festas e falares — queria saber como o povo canta e celebra. Candido, em Os Parceiros do Rio Bonito, deu o passo seguinte: mostrou que o caipira paulista não é tipo pitoresco, mas sujeito social, resultado de um processo histórico concreto. Massapê faz em cena a mesma operação: registra a cultura popular com o amor de Mário e a compreende com a lucidez de Candido — cada canto e cada festa presos às condições materiais que os produziram, a expulsão da terra, o trabalho na cana, a migração. E ainda que a família venha de Minas, o que se forma em cena é sobretudo o interior paulista, esse caldo onde o que chega se mistura ao que já estava.

Não é a primeira vez que essa ponte entre pesquisa e cena se faz no teatro paulista: Carlos Alberto Soffredini partiu de Os Parceiros do Rio Bonito para criar Na Carrêra do Divino. O Grupo Andaime, que em quarenta anos fez da cultura popular sua matéria-prima, inscreve-se nessa linhagem — a do teatro que entende que os costumes do povo não são adorno, mas história sedimentada, como o barro.
E o espetáculo se desenlaça como um rito de continuidade: os bonequinhos do caminhão ganham corpo quando Chapéu chama parentes à cena para cantar com ele. O gesto pode variar de sessão para sessão — e é bom que varie, porque rito não é número fixo de espetáculo, é acontecimento. Naquele momento, a família Silva deixa de ser matéria narrada e passa a ser presença: três gerações no mesmo canto, a prova viva de que a travessia não terminou em perda.

A grande qualidade de Massapê não está apenas em preservar memórias. Está em mostrar que a cultura popular não é uma herança imóvel guardada no passado. Ela nasce do movimento. Das viagens. Das migrações. Dos encontros. Dos deslocamentos que fizeram do Brasil aquilo que ele é. Ao contar a história da família Silva, Antonio Chapéu acaba contando também a história de milhões de brasileiros que, sem saber, ajudaram a construir a alma cultural do país.
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BOARO, Márcio. O barro que caminha: A saga de uma família migrante e a cultura popular que nasce do movimento. Os Que Lutam, São Paulo, 11 jun. 2026. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/o-barro-que-caminha-massape.
Boaro, M. (2026, 11 de junho). O barro que caminha: A saga de uma família migrante e a cultura popular que nasce do movimento. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/o-barro-que-caminha-massape
BOARO, Márcio. "O barro que caminha: A saga de uma família migrante e a cultura popular que nasce do movimento." Os Que Lutam, 11 de junho de 2026. https://osquelutam.com.br/criticas/o-barro-que-caminha-massape.
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Massapê – Histórias de vida e arte de Antonio Chapéu
2026 · São Paulo
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