Os Que Lutam
Lígia e Alberto brindam com taças de vinho tinto, sentados lado a lado no sofá da sala

Heloisa Bortz

Depois da Chuva

O vazio tem classe

Em Depois da Chuva, de Marco Casanova, o drama burguês aparece cansado — e é nessa persistência que seu esgotamento se torna visível

Por Márcio Boaro

São Paulo

Em Depois da Chuva, de Marco Casanova, em cartaz no Ágora Teatro, Tatiana De Marca e Clóvis Gonçalves assumem com precisão os clichês de um casal pequeno-burguês contemporâneo, e isto está longe de ser um problema. Os dois conhecem profundamente o ofício e, sob a direção de Bárbara Bruno, resistem à tentação de emprestar às personagens uma singularidade que o texto deliberadamente lhes recusa. Alberto e Lígia são reconhecíveis quase de imediato. O trabalho dos atores está justamente em sustentar esse reconhecimento sem transformá-lo em caricatura.

O que inicialmente parece a reprodução realista de um drama cotidiano vai aos poucos revelando o avesso de sua fachada idealizada. Texto e direção procuram transformar o vazio pequeno-burguês em forma crítica levando a reprodução do esperado até a exaustão. E o esperado, aqui, tem uma história. É o drama burguês proposto por Diderot no século XVIII, um teatro capaz de colocar em cena a vida doméstica, os dilemas morais e os valores da burguesia em ascensão, valorizando a emoção familiar e a identificação direta do público com as personagens.

Em Depois da Chuva, essa forma aparece cansada, desgastada. Há algo aqui da crise do drama moderno analisada por Peter Szondi: a relação entre as pessoas já não basta para conter aquilo que as determina. O que decide a vida de Alberto e Lígia aconteceu há quarenta anos e só entra em cena como relato. E, para que os dois conversem, é preciso trancá-los em casa: a chuva faz esse serviço. Szondi chamou esse recurso de confinamento e o estudou junto com o teatro existencialista, entre as tentativas de salvar o drama. Casanova não rompe a forma dramática. Ela persiste, e é nessa persistência que seu esgotamento se torna visível. Com exceção da violência que deu início à relação, tudo parece já conhecido. O que vemos é o cumprimento de uma vida prevista.

O casamento nasce de uma violência cometida por ele. Aos 22 anos, Alberto estuprou Lígia no sofá da sala. Quando os pais tomam conhecimento do ocorrido, a solução encontrada é casar os dois. A violência é imediatamente administrada pelas instituições sociais e transformada em família. O estupro não rompe a ordem. Paradoxalmente, produz a ordem familiar.

Dois anos depois vem o filho.

Alberto e Lígia passaram quarenta anos acreditando que viveram uma vida quando, em larga medida, cumpriram um roteiro. Casaram porque era o que se fazia, tiveram o filho porque era o que se fazia, trabalharam e consumiram porque era o que se fazia, permaneceram juntos porque era o que se fazia. Quando a chuva os impede de sair para outro casamento, finalmente ficam presos diante da vida que cumpriram.

As angústias da mulher pequeno-burguesa e a culpa do marido os visitam, mas parecem ser quase as únicas forças que ainda os movimentam depois de quarenta anos.

Clóvis Gonçalves não procura oferecer a Alberto uma grandeza secreta que o absolva de sua mediocridade. E essa escolha é fundamental. Alberto está inteiramente imerso nos valores de seu estrato social. Trabalha, consome, sustenta aquilo que considera seus valores e corresponde, quase no detalhe, ao que se esperava dele. Seu vazio não é ausência de caracterização. É a própria caracterização.

Tatiana De Marca enfrenta uma tarefa mais delicada. Lígia poderia facilmente ser transformada apenas na vítima de uma violência que finalmente encontra palavras para denunciar, mas a personagem não se deixa reduzir a isso. Passou décadas ocupando o lugar que lhe foi oferecido e aprendeu a habitar, também materialmente, a ordem que nasceu de uma violência contra ela. Sua rotina é acordar, ir à academia, almoçar e esperar o marido. Quando procura alguma coisa para além disso, ainda percorre caminhos já previstos.

Lígia em pé, sorrindo, enquanto Alberto a observa sentado ao fundo
Foto: Heloisa Bortz

A atriz sustenta essa contradição sem simplificá-la. Lígia sofreu uma violência fundadora, mas isso não a converte automaticamente numa consciência crítica da vida que construiu. Há ressentimento, sofrimento e acusação, mas há também adaptação, conforto e reprodução dos mesmos valores que organizaram sua existência.

A direção de Bárbara Bruno mantém os dois dentro da banalidade, sem salvá-la por excesso de psicologia, e é dessa contenção que começa a surgir o incômodo.

Há ainda o filho homossexual, tratado como se fosse um fardo de 1951 transportado para 2026. A situação mostra o quanto o casal se acha contemporâneo, mas é anacrônico. Seus valores não existem, nunca existiram: sempre foram a propaganda que a burguesia fez de si mesma. Alberto e Lígia ainda acreditam nela.

Casanova vem da filosofia de Heidegger, que chama de impessoal essa existência em que cada um faz o que “se” faz, pensa como “se” pensa e vive como “se” vive, e vê nela uma condição de todos. Não é por acaso que ele recorre ao confinamento, o recurso que Szondi estudou ao lado do existencialismo. Mas em Depois da Chuva o impessoal tem rotina, consumo, família, academia, expectativa sobre os filhos, segurança material e uma determinada moral sexual. Aparece dentro de uma forma dramática historicamente burguesa. Ali, o vazio tem classe.

Ficha Técnica

Cenografia
Figurino
Iluminação
Trilha sonora
Fotografia
Assistência de direção
Assistência de figurino
Assistência de produção
Camareira
Caracterização
Comunicação
Design gráfico
Direção de produção
Operação de luz
Operação de som

Temporadas

Ágora Teatro

São Paulo

10 de out. de 2026 – 22 de nov. de 2026

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ABNT

BOARO, Márcio. O vazio tem classe: Em Depois da Chuva, de Marco Casanova, o drama burguês aparece cansado — e é nessa persistência que seu esgotamento se torna visível. Os Que Lutam, São Paulo, 12 out. 2026. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/o-vazio-tem-classe.

APA

Boaro, M. (2026, 12 de outubro). O vazio tem classe: Em Depois da Chuva, de Marco Casanova, o drama burguês aparece cansado — e é nessa persistência que seu esgotamento se torna visível. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/o-vazio-tem-classe

Chicago

BOARO, Márcio. "O vazio tem classe: Em Depois da Chuva, de Marco Casanova, o drama burguês aparece cansado — e é nessa persistência que seu esgotamento se torna visível." Os Que Lutam, 12 de outubro de 2026. https://osquelutam.com.br/criticas/o-vazio-tem-classe.

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