
Serra Pelada – A alquimia entre tempos e masculinidades no palco do Teatro de Arena
Por Márcio Boaro
O espetáculo Serra Pelada, apresentado no histórico Teatro de Arena, constrói uma narrativa potente e multifacetada, entrelaçando tempos, personagens e conflitos que ressoam até hoje. Em cena, três momentos distintos se sobrepõem em um jogo dramatúrgico engenhoso, costurando a memória política do Brasil com reflexões sobre masculinidade, poder e ambição.

A peça inicia com um recorte histórico que atravessa as décadas de 1960 e 1970, passando pela Guerrilha do Araguaia e avançando no tempo até o garimpo de Serra Pelada. Nesse eixo, acompanhamos a trajetória de Oswaldão, figura mítica que sonhava em transformar as riquezas da região em justiça social, e seu grande antagonista, o Major Curió, responsável por reprimir a guerrilha e posteriormente administrar o garimpo. O embate entre esses dois personagens desenha uma oposição entre masculinidades: Oswaldão, idealista e íntegro, representando uma rara luz nesse contexto, e Curió, figura brutal que perpetua a violência e o domínio sobre a região.
Nesta primeira parte, a alternância de personagens e atores, aliada ao jogo de focos narrativos, cria um forte estranhamento brechtiano, incentivando o público a refletir sobre os acontecimentos em vez de se deixar levar apenas pelo fluxo emocional da trama. A fragmentação da narrativa estimula o pensamento crítico e reforça a potência dialética da encenação.
O segundo eixo dramatúrgico emerge do universo de Nelson Rodrigues, com referências diretas à peça Boca de Ouro. O personagem-título, obcecado pelo ouro e marcado por sua agressividade, surge como outra faceta da deformação masculina, dialogando diretamente com o contexto do garimpo e da busca desenfreada por poder e riqueza.
Já no tempo presente, acompanhamos quatro documentaristas que, em um quarto de hotel, investigam os rastros deixados por Serra Pelada. Esse núcleo narrativo traz à tona a camaradagem masculina exacerbada, expondo como certas dinâmicas de poder, competição e hierarquia continuam atravessando gerações.
A direção do espetáculo conduz com maestria essa alquimia complexa entre tempos e linguagens, garantindo fluidez e organicidade na alternância entre as camadas narrativas. O elenco, afinado e equilibrado, transita com precisão entre registros distintos, sustentando a densidade do espetáculo sem perder o ritmo.
Serra Pelada não apenas revisita um período crucial da história brasileira, mas também provoca uma reflexão sobre a permanência dessas forças que moldam nossa sociedade. Um espetáculo denso, vibrante e essencial.
Ficha Técnica
Direção e texto: Alexandre Dal Farra
Elenco: Gilda Nomacce, Flow Kontouriotis, Monalisa Silva, Victor Salomão
Direção de movimento: Lucas Brandão
Produção: Corpo Rastreado – Leo Devitto e Lud Picosque
Serviço
Classificação: 14 anos
Duração: 90 minutos
Ingressos: Gratuito – Bilheteria: 1 hora antes do espetáculo
📅 Temporada: 13 de fevereiro a 23 de março de 2025
🕗 Horários: Quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h
🚫 Sessões canceladas: 22, 23, 27 e 28 de fevereiro; 1, 2, 8 e 9 de março
🎭 Sessões extras: 18 e 19 de março, às 15h
📍 Local: Teatro de Arena – Rua Dr. Teodoro Baima, 94, Vila Buarque – São Paulo – SP
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BOARO, Márcio. Serra Pelada – A alquimia entre tempos e masculinidades no palco do Teatro de Arena. Os Que Lutam, São Paulo, 7 mar. 2025. Disponível em: https://osquelutam.com.br/criticas/serra-pelada-a-alquimia-entre-tempos-e-masculinidades-no-palco-do-teatro-de-arena.
Boaro, M. (2025, 7 de março). Serra Pelada – A alquimia entre tempos e masculinidades no palco do Teatro de Arena. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/criticas/serra-pelada-a-alquimia-entre-tempos-e-masculinidades-no-palco-do-teatro-de-arena
BOARO, Márcio. "Serra Pelada – A alquimia entre tempos e masculinidades no palco do Teatro de Arena." Os Que Lutam, 7 de março de 2025. https://osquelutam.com.br/criticas/serra-pelada-a-alquimia-entre-tempos-e-masculinidades-no-palco-do-teatro-de-arena.
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Serra Pelada
2025 · São Paulo
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