Ensaio
OS EXPERIMENTOS DE TRANSIÇÃO DO ENGENHO TEATRAL
A divisão de trabalho ainda estabelece de antemão quem faz e quem assiste aos espetáculos teatrais mas, se um dia tivermos a sorte de ultrapassar este estado de coisas, a separação entre cena e plateia também será ultrapassada. Isto não significa que as diversas formas existentes e precedentes deixarão de existir: elas continuarão a ser praticadas, mas as suas condições de produção serão alteradas. Enquanto isso não acontece, o teatro que insiste em trazer para a cena a experiência dos tempos por nós vividos – como é o caso do Engenho Teatral –, faz experimentos de transição, se nos for permitida a provocação. Isto quer dizer que a cena do Engenho, justamente porque mergulha fundo no presente, já aponta para o que há de ser feito no futuro. Nem é preciso dizer que este mergulho no presente também implica atualização da memória dos experimentos que nos precederam desde pelo menos o século XIX e dispensam enumeração.
Pequenas histórias que à história não contam é uma das evidências que demonstram o argumento acima. Comecemos pela rubrica que mostra o grau de consciência do Engenho em relação a sua proposta e método de trabalho para este espetáculo: “À exceção de Chacrinha, todos os personagens prestam contas ao público, embora nem todos tenham consciência disso. Nesse sentido, [elas mesmas ou os integrantes do elenco] podem e devem dialogar, responder, reagir, improvisar sobre comentários, provocações ou reações da plateia. No jogo de improvisação, e mesmo provocação, os atores também assumem o papel de plateia quando não forem o foco da cena.!” [grifos e inserção nossos].
A peça como um todo é herdeira da forma do teatro tribunal, que por sua vez tem longa história no conjunto das experiências do teatro de agitprop. Em vez de desenvolver um enredo centralizador, como pede a fórmula baseada no drama, esta peça desenvolve um argumento e cada demonstração desenvolve seu próprio enredo, no que podemos chamar de quadros, na boa tradição do teatro épico. Cada quadro é um estudo de caso, variando os pontos de vista. Assim, por exemplo, veremos o intelectual, ligeiramente consciente dos seus privilégios de classe, em crise; no interior desta crise, ele expõe e enquadra os diversos candidatos a mercadoria propriamente dita no mercado da mídia e do espetáculo, além dos derrotados à partida que não têm nenhuma chance de sucesso, mesmo os bem sucedidos. Como pedia Zola ao romance do seu tempo, temos aqui “processos verbais” sobre os quais somos convidados a formular um julgamento.
Para destacar um capítulo deste inventário de tragédias, vejamos o caso da “velha mijona”. O dramaturgo/intelectual/artista fornece os dados: ela enlouqueceu porque seu barraco e seus filhos foram atropelados pelos funcionários da empreiteira que está abrindo uma avenida com seus tratores e escavadeiras e aconteceu de ela, a velha, estar no meio do caminho. Além de perder os filhos, ela viu os restos da casa incendiados e por isso mija numa fogueira imaginária para apagá-la, afirmando que os agentes desse fogo precisam ser detidos.
O quadro dá voz à velha, ao dramaturgo e à técnica, que por meio de projeções e sonoplastia ajuda o público a imaginar o tamanho da violência que estamos presenciando. Entre os que falam, temos as variantes linguísticas, um dos principais trunfos da dramaturgia herdeira do naturalismo, do agitprop e do teatro épico. Aliás, esta era uma exigência que Brecht fazia até mesmo a seus próprios experimentos líricos: trazer as vozes e os ritmos das ruas para a literatura, sobretudo a voz coletiva.
Como estamos num experimento de teatro épico, no jogo das cenas que compõem este quadro, a plateia tem a possibilidade de ver tanto no gesto dos atores quanto na própria imaginação o tamanho do estrago produzido pela livre associação entre Estado – ou poder público que definiu e desenhou a avenida – e iniciativa privada (armada de tratores e escavadeiras). Esta última, representada por seus trabalhadores e funcionando como ponta de lança do capital, o verdadeiro motor da violência encarnada na especulação imobiliária, característica das aventuras do dinheiro e das desventuras da população paulistana, por sua vez representada pela velha mijona.
Se tivermos a sorte de mudar os rumos que o mundo segue, na nova situação esta peça do Engenho será um clássico e a sequência aqui referida um modelo para muita experiência teatral que se pretenda séria.
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COSTA, Iná Camargo. OS EXPERIMENTOS DE TRANSIÇÃO DO ENGENHO TEATRAL. Os Que Lutam, São Paulo, 13 maio 2026. Disponível em: https://osquelutam.com.br/ensaios/os-experimentos-de-transicao-do-engenho-teatral.
Costa, I. C. (2026, 13 de maio). OS EXPERIMENTOS DE TRANSIÇÃO DO ENGENHO TEATRAL. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/ensaios/os-experimentos-de-transicao-do-engenho-teatral
COSTA, Iná Camargo. "OS EXPERIMENTOS DE TRANSIÇÃO DO ENGENHO TEATRAL." Os Que Lutam, 13 de maio de 2026. https://osquelutam.com.br/ensaios/os-experimentos-de-transicao-do-engenho-teatral.
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