Ensaio
SHEN YUN: DANÇA MÍSTICA CONTRA O COMUNISMO
Durante os primeiros meses do anos de 2024, 2025 e 2026 EC, quem pesquisou bastante por “China” ou questões ligadas à mesma se viu assediado pela publicidade de um espetáculo de dança e música bem peculiar. Sobre imagens gravadas em full hd, por vezes exibidas com velocidade reduzida para causar efeito, uma narração nos trás as seguintes informações: "A arte suprema é bela, de tirar o fôlego, eterna e comovente. Uma experiência artística com cinco mil anos de história, inspirada pelo divino. Experimente Shen Yun". Por fim, aparece na tela o logo do Shen Yun Performing Arts e o endereço para o site da organização. No site a primeira coisa que salta à vista do visitante é uma enorme foto do espetáculo com o seguinte subtítulo: "A China antes do Comunismo". Para alguém que está estudando sobre a China e sua cultura este é um slogan intrigante. Na mesma época, quando se passeava pelos bairros do Bom Retiro ou da Liberdade na cidade de São Paulo, arredores de grande habitação de orientais, era possível encontrar cartazes de divulgação do espetáculo espalhados pelos estabelecimentos comerciais e filipetas disponibilizadas em instituições culturais.
A peça é apresentada no Teatro Bradesco, espaço cênico vinculado ao Banco homônimo, considerado uma das empresas mais lucrativas do país e que configura na lista dos 10 bancos mais lucrativos do mundo. Vale ressaltar que o ex-presidente desta instituição bancária, Octávio Lazari, se disse "revigorado" após a eleição de 2018 EC que levaram Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto, mais tarde, um dia antes das eleições de 2022 EC, foi vazado vídeo no qual o bancário fazia elogios ao exército brasileiro, em ocasião em que o ex-militar tentava a reeleição.
Mesmo assim, Shen Yun Performing Arts apresenta-se como uma empresa "sem fins lucrativos" com mais de 400 artistas que viajam por mais de 200 países com seu espetáculo de dança para mostrar "uma cultura divina-perdida". Além do elenco que veio para o Brasil existem outras cinco formações que concomitantemente estão fazendo o mesmo tipo de trabalho em outros países do mundo "sem fins lucrativos".
[...] o Shen Yun teve rápido crescimento e viu sua receita crescer de US$ 8 milhões em 2011 para US$ 46 milhões em 2022 e quase US$ 230 milhões em ativos totais hoje, conforme dados declarados ao IRS, a "Receita Federal" dos EUA. (ALMEIDA, 2024).
Mas quais seriam os fins altruístas desta iniciativa? Será que são para mostrar realmente uma cultura divina perdida?
Logo na entrada do teatro encontramos os programas bilíngues do espetáculos em português e chinês, livretos aos moldes de ópera, impressos em papel couchê. Um pouco mais a frente há um pequeno estúdio de filmagem com softbox e câmeras preparadas para colherem relatos dos espectadores assim que saírem. Um pouco mais à frente antes de chegar ao café são vendidos lenços de seda, leques, broches e livros de meditação da seita Falun Dafa.
Falun Dafa é uma seita fundada no dia 13 de maio de 1992 EC, dia do aniversário de seu criador Li Hongzhi, considerado pelos seguidores da prática como "o Buda vivo". A princípio a proposta é usar a meditação e práticas budistas para a melhoria da saúde e bem estar. Mas em 1999 EC a prática é proibida pelo Politburo do Partido Comunista da China em função de praticar pseudociência e de sob o manto de organização religiosa e culto atuarem da seguinte forma:
[...] infiltração de recursos e pessoal estrangeiro nos rumos diretivos da seita, encorajando-a tomar a cabo de atividades de cunho político; seus locais de reuniões coincidiam, não ironicamente, em locais públicos de aparelhos de seguridade, universidades estatais sensíveis ao estado chinês, comprometendo a rotina e também a segurança; e por fim, resumidamente, usar da individualidade de cidadãos comuns para propagar cultismo, com propósito de rivalizar com o sistema político e de leis chinesas (LOCKS, 2023, p. 30) .
A seita religiosa estava tomando contornos de partido político, valendo-se da prática religiosa para enganosamente conquistar membros para o partido político. Vale ressaltar que a República Popular da China é um Estado Ateu, comprometido com a difusão da visão materialista de história, mas que permite a liberdade religiosa de quaisquer crenças. Tal postura está resguardada no artigo 36º da Constituição da República Popular da China que versa o seguinte:
Os cidadãos da República Popular da China gozam de liberdade de crença religiosa.
Nenhum órgão do Estado, organização pública ou indivíduo pode obrigar os cidadãos a acreditar ou a não acreditar em qualquer religião; nem pode exercer discriminação contra cidadãos por estes pertencerem ou não a qualquer religião.
O Estado protege as actividades religiosas normais. Ninguém pode servir-se da religião para se dedicar a actividades que alterem a ordem pública, ponham em perigo a saúde do cidadão ou interfiram no sistema educativo do Estado.
As instituições religiosas e os assuntos religiosos não estão subordinados a qualquer domínio estrangeiro. (CHINA, 2018)
Portanto, vale ressaltar, haja visto o texto constitucional, que o escopo dogmático não pode influenciar dentro das decisões políticas e que não pode receber influência estrangeira, duas ações presentes no comportamento dos membros do Falun Dafa. Podemos dizer que existem hoje cinco religiões em atividade na China e reconhecidas pelo Estado: budismo, taoísmo (que não é muito bem uma religião, mas sim uma filosofia), catolicismo, cristianismo evangélico e islamismo. A saber que essas instituições estão todas subordinadas aos Estado Chinês. Mesmo a Igreja Católica Chinesa não responde ao Vaticano, mas sim à República Popular da China, ou seja, com um forte controle do Estado para que não ultrapasse os limites constitucionais. Uma coisa importante de dizer sobre a China é que ela não é teísta, ela é espiritualista, pois está mais vinculada a religiões que são práticas filosóficas, que ensinam exercícios espirituais éticos para a conduta social em detrimento de condicionamento moral perante um deus das demais religiões.
Também é preciso evidenciar que não existe somente o Partido Comunista Chinês, o PCCh, que é o maior partido do país com 96.700.000 de filiados, a China ainda conta com outros 8 partidos dirigentes que participam da organização social do país e reconhecem a liderança do PCCh como partido principal. Os 8 partidos junto com o PCCh atuam no Congresso Nacional do Povo e na Conferência Consultiva Política do Povo Chinês.
Por conta de reivindicarem a dissolução do PCCh e a construção de um regime teocrático na China o Falun Dafa foi banido em 1999 EC, sediando-se em Deerpark distrito do estado Nova York no EUA, território onde seu criador Li Hongzhi, já havia se auto exilado em 1998 EC. Em terreno neoliberal e declaradamente anticomunista, a seita encontrou território próspero para atuar. Shen Yun foi criado em Nova York no ano de 2006 EC por um Membro Falun Dafa identificado no programa da peça pela sigla D.F. como diretor artístico da companhia.
No interior do teatro, o público é recebido pela cortina fechada onde é projetada via elipsoidal o símbolo estilizado de uma câmera fotográfica atravessada por uma faixa, indicando a proibição de fotografias. Assim que um agrupamento de pessoas forma-se em um determinado setor da plateia, este é abordado por um membro da equipe que pergunta se o público sabe o que significa o título do espetáculo. Em seguida é revelado que o significado de Shen Yun é "Dança dos seres sagrados". Mas a grande insistência do membro da equipe é afirmar repetidamente que o espetáculo que será apresentado é proibido pelo PCCh e reiterar a proibição de registros fotográficos, o mesmo alerta encontra-se reiterado no programa da peça. O membro da equipe afasta-se lamentando que a China atual não possa aproveitar sua cultura tradicional chinesa. Afirmação estranha para quem acompanhou o 20º Congresso Nacional do Partido Comunista da China (PCCh) ocorrido entre de outubro de 2022 EC, no qual encontra-se a seguinte afirmação:
A defesa e o desenvolvimento do marxismo devem ser combinados com a excelente cultura tradicional chinesa. Apenas enraizada no solo fértil da história e cultura do próprio país e nação, a árvore da verdade do marxismo terá raízes profundas e folhas exuberantes. A excelente cultura tradicional chinesa data dos tempos remotos e está repleta de ricos e profundos conhecimentos, sendo a cristalização da sabedoria da civilização chinesa. (JINPING, 2022, P. 16).
Mostrando o quanto a cultura tradicional é importante para a República Popular da China e para os encaminhamentos do Partido Comunista Chinês. O mesmo documento segue propondo a fusão e conexão da "essência do marxismo" com a "quintessência da excelente cultura tradicional chinesa" e "valores milenares". O texto segue ressaltando que o interesse do PCCh é adaptar as teorias científicas marxistas ao contexto chinês, mantendo suas características tradicionais.
A apresentação de Shen Yun é uma dança-teatro fragmentada em 19 quadros, sendo 2 deles números de música solo. O quadros são intercalados pelas narrações e comentários de um casal, a mulher falando em mandarim e o homem falando em português quase como se fosse uma tradução simultânea, mas claramente nota-se que o entrecenas é encenado e ensaiado por conta dos clichês textuais teatralizados. Num estilo "For Dummies" os quadros antes de sua execução são anunciados por esses narradores de forma simplificada e logo após são comentadas com irreverência buscando conectar o público com o mesmo. Diferente do que acontece em espetáculos de revista ou populares a fragmentação vista não colabora para o espetáculo, mas sim denuncia uma falta de consciência no uso de um recurso que poderia ser estilístico.
Os quadros são acompanhados por cenários digitais 3D em movimento projetados em um telão de LED posicionado ao fundo da cena. O programa da peça faz questão de anunciar que o telão faz parte de um "sistema e método" patenteado "para integrar cenário digital com performance no palco". O método é uma técnica antiga e simplória de ilusionismo feito aos olhos do público. Quando os atores ficam parados durante muito tempo próximos ao telão a sombra dos mesmos projetados no mesmo faz com que o ilusionismo pretendido seja quebrado e revelado. Esse único recurso de cenografia limita a cena e os atores, chapando a visualidade e obrigando a composição cênica a não interferir no uso do telão. As imagens em 3D são muito semelhantes à estética "Realista Cristã" presentes nas ilustrações das capas e miolos da revista religiosa Sentinela.
As cenas de dança misturam adaptações de narrativas clássicas chinesas - como Jornada para o Oeste, a lenda de Xi Shi e a lenda do monge Ji Gong -, com danças tradicionais e mitologia da seita que representam. Logo no início a animação em 3D mostra uma simulação de como os seres celestiais vieram para a terra, ou seja, uma das versões míticas da criação na vida na terra dentre os vários mitos de origem contidos na mitologia chinesa antiga. O nome desta cena segundo o programa é "O momento da salvação começa". O deus criador exorta os seres divinos: "Sigam para a terra para salvar todas as vidas". Os seres celestiais ao atenderem o chamado divino vão para terra e se tornam parte da nobreza. A terra é mostrada então como se fosse um paraíso em perfeita ordem, com homens e mulheres dançando, flores desabrochando em colinas, águas correndo pelos campos e seres míticos causando pequenas perturbações cômicas. A narrativa segue um tom simpático até a cena chamada "Crimes no fim dos dias" na qual o Falun Gong é mostrado como uma simples prática de "exercícios meditativos e códigos morais para a autoaprimoramento". Não se toca na questão das intenções políticas da seita. Durante o desenvolvimento da cena, uma inocente moça recebe um livro da prática mística e o leva para casa, Seu próprio irmão que faz parte da Polícia do Estado Chinês a entrega ao Partido Comunista, fazendo com que sua casa seja invadida pela polícia. No trecho do livreto relativo a este momento podemos ler:
O regime vê a popularidade da prática e seus ensinamentos espirituais como uma ameaça ao seu poder. Por mais de suas décadas tem perseguido os praticantes do Falun Dafa, prendendo-os, torturando-os e até mesmo assassinando-os através de extração forçada de órgãos. (TEATRO BRADESCO, 2024, P. 12).
Já vimos que o Falun Dafa foi proibido por ser uma instituição religiosa com interesses e práticas políticas que ferem o artigo 36º da constituição chinesa. Durante a repressão às manifestações do grupo em 1999 EC houve uso de força policial e truculência - fato registrado em vídeo, cujo recorte é amplamente divulgado pelos membros da seita. Integrantes da prática ao serem presos foram conduzidos a campos de reeducação, mas não se tem documentação nem evidências dos mesmos terem sido submetidos à tortura. Quanto ao assassinato de membros da seita para remoção de órgãos pelo Estado Chinês é uma narrativa que começou a ser veiculada somente em 2006 EC junto com a apresentação do espetáculo de dança, sete anos depois do êxodo da seita para os EUA. Fica a pulga atrás da orelha: porque demorar sete anos para começar a veicular essa denúncia? Por que Li Hongzhi, que já estava auto exilado desde antes do exílio total da seita, não se deu ao trabalho de iniciar no exterior a denúncia desse suposto "crime" realizado contra seus fiéis? Nenhuma destas brechas na narrativa são obturadas pelo Falun Dafa em seus canais de divulgação, muito menos no espetáculo de dança.
Neste ponto da função é possível entender que o espetáculo pretende ao vender em imagens e vídeos na internet a afirmação: "Antes do Comunismo a China teve um passado glorioso". A sentença é acompanhada pela imagem de uma linha do tempo que vai de 2100 AEC, 30 anos antes do início da Dinastia Xia, até 1644 EC, início da dinastia Quing. Ou seja, sem considerar o final da Dinastia Quing em 1911 EC e o início da República da China e sem considerar o que a República Popular da China, de orientação comunista, só começa em 1949 EC de fato. Portanto, omitindo no mínimo 39 anos deste dito "passado glorioso" ou no máximo 305 anos história chinesa. Saber os fatos que se passaram neste momento da história chinesa é fundamental para entender as escolhas ideológicas do espetáculo de dança. O recorte proposto na linha do tempo deixa de fora o Século da Humilhação (1839-1949 EC), período de declínio da Dinastia Quing em que a China perdeu soberania e sofreu sob o poder imperialista inglês, francês e japonês. Período do passado chinês sem glória nenhuma, no qual o país teve que amargar subjugo de tratados desiguais, Guerras do Ópio, Invasão inglesa no Tibete e destruição de patrimônios históricos e culturais chineses. Durante o período da República Chinesa, a partir de 1911 EC, com a influência dos Senhores da Guerra, proprietários rurais com exército próprio que lutavam pelo domínio do poder nacional, foi realizado o tratado das Vinte e uma Exigências que durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais deixaram a nação subjugada ao Japão. O Século da Humilhação só termina em 1949 EC, após a revolução, com a constituição da República Popular da China, dando fim à ocupação estrangeira no território.
O momento ápice do primeiro ato consiste na execução de uma ária para barítono chamada "Difícil de encobrir", composta pelo diretor artístico do espetáculo com o seguinte conteúdo doutrinário:
Depois de tantas reencarnações, onde está o lar?
Sucesso e fracasso são mensurados com fama, lucros e sentimentos humanos
Mas a maioria das pessoas do mundo veio dos céus
Vieram para esperar pelo Criador
A mentalidade moderna está distante do Divino
O Evolucionismo teme ser exposto à luz do dia
O Ateísmo está arruinando as pessoas
A Expectativa das pessoas foi encoberta
Mas o Dafa, o Grande Caminho que leva de volta aos Céus, já está sendo transmitido
Os discípulos do Dafa conhecem a verdade
Dissipe suas dúvidas e ilusões e trilhe o caminho divino.
(TEATRO BRADESCO, 2024, P. 12).
A canção vale-se de sentenças dogmáticas, ou seja, afirmações apresentadas como incontestáveis e indiscutíveis. Esse mesmo tipo de técnica lírica foi usado pelo teatro anchietano durante o período colonial para iludir e catequizar. Inebriados pela estética do canto bem executado, o conteúdo ideológico dogmático é apreendido sem grandes dificuldades. A mensagem é clara: o cientificismo e o ateísmo, bases do Estado Chinês, são colocados como o mal do mundo e a única salvação da humanidade é o deísmo criacionista e misticismo do Falun Dafa.
No segundo ato os quadros tradicionais são intercalados com quadros de discurso moral: lealdade da esposa ao cônjuge, obediência filial, afastamento de vícios etc. Como a orquestra é vendida, assim como a dança, como tradicional, neste bloco também acontece um solo do único instrumento tradicional presente na orquestra: o erhu, instrumento chinês de duas cordas tocado por arco. Os demais instrumentos da orquestra são bem ocidentais: violinos, violas, cellos, trombones, flautas etc. O maestro também segue as tradições e trejeitos europeus, frustrando que foi atrás de instrumentos tradicionais chineses e da música popular milenar chinesa.
Antes da cena final entra mais uma ária composta pelo Diretor Artístico, desta vez de soprano, mas também com forte teor dogmático.
Quem não acredita no Divino age sem limites nem escrúpulos
Suas más ações levam a dívidas cármicas
Cada um precisa pagar pelos próprios pecados
A deterioração da moralidade do mundo atrairá grandes desastres e calamidades
Quem não quer que as pessoas tenham fé no Divino?
É o demônio que trabalha para enganar as pessoas
Satã usa o ateísmo e o evolucionismo como instrumento de manipulação
Seguir a mentalidade e os comportamentos modernos nos degrada
Mantenha as tradições benevolentes
Persevere nas provocações Divinas
O Criador já chegou
Dafa, a grande Lei da salvação, está se cumprindo
Dafa está se cumprindo.
(TEATRO BRADESCO, 2024, P. 14).
Seguindo na prática de doutrinação, o canto caminha pelos mecanismos da construção de medo acerca do futuro da humanidade, e na ameaça de punição cármica para quem abraça práticas pecaminosas de comportamento moderno, o ateísmo e o evolucionismo. A construção da ideia de medo de uma punição através de uma justiça divina para além da matéria é um dos grandes meios de manipulação das religiões e seitas. Neste canto aparece também uma oposição bem estrangeira para as tradições chinesas: a figura de Satã colocada como oposição do Divino Criador. A compreensão budista e taoísta de bem e mal não comungam com esse tipo de oposição de ou isto ou aquilo. O símbolo do Tao formado pelos círculos divididos em yin e yang, o preto e o branco respectivamente, trazem a ideia de dualidade complementar onde o princípio passivo, representado pela fatia preta, ao se colocar em movimento tem dentro de si a partícula do princípio ativo, representada pelo ponto branco e vice e versa. Ou seja, no Shen Yun a dualidade complementar taoísta é substituída pela ideia ocidental de oposição antagônica, onde deus é o princípio criador em confronto com Satã enquanto princípio destruidor. Ao sabermos que Satã está relacionado no espetáculo com o Ateísmo e que a República Popular Chinesa é um Estado Ateu fica claro a intencionalidade de discurso contida na música.
Para finalizar o espetáculo a última cena apresenta um "Mundo degradado" representado por pessoas do mesmo sexo andando de mãos dadas e pessoas absortas em seus celulares, ou seja, dizendo que a degração do mundo é fruto da homosexualidade e do uso da tecnologia. Neste meio social, praticantes de Falun Dafa protestam com suas palavras de ordem: "Verdade, benevolência e tolerância" - termos bem contestáveis quando observadas as práticas da seita e discurso apresentado na cena do que eles vêem como degradação social. Os fiéis do Dafa são oprimidos pelas forças policiais do Estado Chinês, caricaturados por vestimentas pretas com estampas da foice e o martelo invertidos. Durante a perseguição um policial se machuca e é socorrido por um dos fiéis do Falun Dafa, mesmo no chão sem poder se mover o policial ainda insiste de modo cômico em bater no membro do Dafa. O elemento cômico aqui é usado para transparecer uma rigidez de caráter por parte da força policial chinesa. A cena é concluída com o céu ficando preto gerando um tsunami comunista que obriga o retorno do deus criador para restaurar o paraíso teocrático segundo o Falun Dafa. Deixando mais uma vez evidenciado as intenções da propaganda anticomunista e da dos desejos de instauração de um estado teocrático na China.
Na despedida, o casal de Mestres de Cerimônia fazem questão de dizer um: "Até o próximo ano", manifestando que a mesma propaganda cênica voltará aos palcos da cidade ano após ano para veicular misticismo deísta e anticomunismo.
Mas quem patrocina tal espetáculo. Pois trazer tamanha estrutura com 40 artistas dos EUA, uma infinidade de figurinos, adereços e um telão de LED 3D que cobre totalmente o fundo do palco não é algo barato. No final do próprio programa existem duas páginas de publicidade daquele que é colocado como o orgulhoso patrocinador do Shen Yun, o jornal The Epoch Times (TEATRO BRADESCO: 2024, P.33). O periódico de extrema direita ganhou notoriedade nos últimos anos por veicular fake news da conspiração QAnon, propaganda pró-Donald Trump e campanhas contra vacinas. Pesa sobre a mesma mídia acusações de lavagem de dinheiro e recebimento de propina.
Em Shen Yun o recurso episódico da narrativa torna visível o interesse de manipulação, por inserir os Mestres de Cerimônia a todo tempo reiterando o discurso, tratando o público como incapaz de compreender o que está ali sendo apresentado. Por mais que tenha a intencionalidade estética de reiterar a mensagem anticomunista e facilitá-la para o espectador numa metodologia bem "For Dummies", acaba caindo em um didatismo primário e doutrinário aos moldes do teatro catequético. Por mais que se busque uma beleza e encantamento com a execução técnica de virtuoses - e os artistas se esforcem estando bem ensaiados e com condições executarem as técnicas de habilidades físicas- a virtuose fica aprisionada na repetição exaustiva de acrobacias bem executadas que cansam um público mais atento, ou ainda na repetição de recursos estéticos que saturam pelo uso exagerado. Shen Yun não entrega aquilo que promete, pois não supre a curiosidade acerca da tradição cultural chinesa, nem difunde a arte chinesa, mas faz cumprir sua função de veicular propaganda deísta, anticomunista e anticientificista, carregada de mentiras sobre a República Popular da China. Shen Yun vale-se do desconhecimento das pessoas no ocidente acerca da constituição, da organização política e da cultura chinesas para veicular inverdades sobre o cotidiano chinês. Sua forma virulenta de publicidade tende a pegar desavisados nas redes sociais, que podem estar muito propensos a aceitar o discurso mentiroso ali apresentado. Anualmente este discurso é repetido em um palco na cidade de São Paulo e como já ensinou Joseph Goebbels, ministro da proganda na Alemanha Nazista: "Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade".
Referências
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POMAR, Wladimir. A Revolução chinesa. São Paulo: Editora Unesp, 2003.
TEATRO BRADESCO. Programa do espetáculo de dança Shen Yun. São Paulo: Teatro Bradesco, 2024.
VIDAL, Iara. Propaganda anticomunista travestida de espetáculo. Disponível em: https://revistaforum.com.br/blogs/diariodachina/2023/3/17/propaganda-anticomunista-travestida-de-espetaculo-132938.html . Acessado em 25 de abril de 2024.
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ALVES, João. SHEN YUN: DANÇA MÍSTICA CONTRA O COMUNISMO: Uma propaganda anticomunista disfarçada de espetáculo. Os Que Lutam, São Paulo, 23 abr. 2026. Disponível em: https://osquelutam.com.br/ensaios/shen-yun-danca-mistica-contra-o-comunismo.
Alves, J. (2026, 23 de abril). SHEN YUN: DANÇA MÍSTICA CONTRA O COMUNISMO: Uma propaganda anticomunista disfarçada de espetáculo. Os Que Lutam. https://osquelutam.com.br/ensaios/shen-yun-danca-mistica-contra-o-comunismo
ALVES, João. "SHEN YUN: DANÇA MÍSTICA CONTRA O COMUNISMO: Uma propaganda anticomunista disfarçada de espetáculo." Os Que Lutam, 23 de abril de 2026. https://osquelutam.com.br/ensaios/shen-yun-danca-mistica-contra-o-comunismo.
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