Teatro

Agropeça

O estilhaçamento da nostalgia: do mito infantil à máquina de poder do agronegócio

Em 1992, na Igreja Santa Ifigênia, eu assisti ao primeiro espetáculo do Teatro da Vertigem. O Paraíso Perdido me causou um assombro que ainda carrego, mesmo passadas mais de três décadas, como régua estética: um modo de reconhecer quando uma obra não está ali para agradar, e sim para deslocar. Ao entrar na arena de rodeio montada no Espaço Cultural Elza Soares para ver Agropeça, percebo que a vitalidade do grupo continua intacta.

Essa continuidade não é milagre. Ela é política cultural concreta: uma cidade que, por um período, entendeu que teatro de pesquisa não se faz sob chantagem de sobrevivência. O Vertigem é um caso exemplar do que a Lei Municipal de Fomento ao Teatro permitiu produzir: não apenas espetáculos, mas uma estética construída em camadas, com tempo para errar, aprender, insistir, radicalizar. Agropeça é, também, o fruto dessa duração: só chega aqui quem atravessou o caminho inteiro.

Agropeça — Foto de divulgação (Lígia Jardim)
Foto: Lígia Jardim

E é aqui que a obra toca no nervo do teatro político: quando ele é realmente dialético, não se contenta em narrar a exploração; ele impõe a si mesmo a tarefa de profanar o sagrado burguês. Para revelar as engrenagens de um sistema estrutural, é necessário capturar os símbolos mais afetuosos de uma cultura e virá-los implacavelmente do avesso. A tradição cênica alemã, de Brecht aos palcos da Volksbühne sob Frank Castorf, nomeou isso como Zertrümmerung: o estilhaçamento operando junto ao estranhamento. O monumento não é reverenciado; ele é fatiado, canibalizado e exposto em cena como material de demolição.

Na cena brasileira contemporânea, poucos espetáculos operam essa maquinaria com tanta precisão quanto Agropeça. Com texto de Marcelino Freire, concepção e direção de Antônio Araújo (em codireção com Eliana Monteiro), a montagem elege como alvo do desmonte o maior monumento do imaginário rural pacificado do país: O Sítio do Picapau Amarelo.

A forja do latifúndio afetivo

Para dimensionar o choque proposto pelo Vertigem, é preciso materializar a gênese do símbolo que está sendo estilhaçado. Monteiro Lobato começa a escrever o Sítio em 1920, 32 anos após a abolição formal da escravatura. O universo do livro repousa sobre uma geografia historicamente atravessada por oligarquias rurais e pelas marcas da economia escravista — e o gesto ideológico central é transfigurar essa terra marcada num éden lúdico.

No Sítio, a violência das relações de trabalho é convertida em afeto doméstico; a luta de classes desaparece sob o verniz de uma “família” rural harmoniosa; e a figura de Tia Nastácia — mulher negra, despossuída, sem terra, sem autonomia — é enquadrada no dispositivo mais antigo de pacificação do Brasil: a servidão como “amor”. O que era relação material vira “devoção”. O que era exploração vira “carinho”. A televisão completou esse trabalho de anestesia, fabricando uma memória infantil coletiva: um passado rural comum, doméstico, terno — um falso chão compartilhado que nunca existiu desse modo.

É por isso que o slogan “O Agro é Pop” não pega apenas por repetição publicitária: ele pega porque encontra um terreno psíquico já preparado. E esse terreno não é neutro; é uma pedagogia afetiva da ordem.

Agropeça ataca exatamente esse entorpecimento afetivo. E faz isso começando pela forma: a encenação ocorre numa arena de rodeio montada no Galpão do MST — isto é, numa arquitetura simbólica onde a violência vira espetáculo, instalada dentro de um espaço atravessado pela disputa por terra. Essa contradição não é “contexto”: é dramaturgia do real. O lugar trabalha antes da cena começar.

A arena, por definição, organiza uma ética do olhar: a violência precisa ser vista para se legitimar. No rodeio, o corpo vira prova de força; no espetáculo, o corpo vira prova de estrutura. O público circunda e é circundado — como se a montagem dissesse: não há como assistir inocentemente. O chão não é lembrança; é campo de conflito.

Agropeça — Foto de divulgação (Lígia Jardim)
Foto: Lígia Jardim

E o espetáculo radicaliza esse campo ao promover um confronto cultural: personagens do Sítio atravessam o universo contemporâneo do agronegócio e do “agronejo”. A montagem olha para a promiscuidade entre indústria cultural, capital financeiro e poder político — e não precisa “explicar” a bancada “Boi, Bala e Bíblia”; ela a coloca como atmosfera: terra, violência e moralidade circulando como um mesmo sistema de captura.

Para implodir o projeto lobatiano, a montagem não fica no comentário: ela desloca os meios de produção do imaginário para corpos dissidentes — e isso muda o regime inteiro de recepção. A Emília interpretada por uma atriz trans (Tenca Silva) não funciona como “atualização simpática”, nem como carimbo identitário: ela funciona como estranhamento sobre a autoridade. O que está em jogo não é “quem pode ser Emília”; é o que acontece com o público quando o símbolo mais íntimo da infância aparece transfigurado e não permite acomodação. O familiar deixa de ser abrigo. Vira pergunta.

O mesmo vale para Anastácia (Mawusi Tulani): quando a personagem deixa de ser a engrenagem “carinhosa” do lar e passa a carregar consciência racial e força ancestral, a montagem faz o que a televisão sempre evitou: retira o verniz do afeto e devolve a estrutura. A crítica não é “moral” ao passado; é material ao presente: como se constrói um país que aprende a chamar exploração de família?

Pedrinho e Narizinho, vistos nas suas contradições, deixam de ser lembrança e viram operadores de gênero. Ele encarna o aprendizado da masculinidade normativa — o menino treinado para o mando como se fosse brincadeira. Ela busca assenhorar a própria narrativa diante de violências que o mundo naturaliza como destino, num ambiente patriarcal que ainda tenta mantê-las submissas. Dona Benta e Visconde aparecem como pilares ideológicos: uma branquitude com dificuldade de autocrítica e um intelectual/estrangeiro inescrupuloso — aquele que explica, circula, lucra e não paga o preço do que legitima.

Em vez de interioridade, a montagem oferece função: quem manda, quem serve, quem negocia, quem captura. O resto o espectador monta, sem anestesia.

O gestus da chantagem patriarcal

No centro da arena fraturada, surge o fazendeiro que se coloca como tutor de Pedrinho. Ele não “ensina” apenas valores do campo; ele transmite doutrina de preservação do mando — como quem repassa a herança do poder. E o detalhe dramatúrgico é decisivo: ele se ofende profundamente quando Pedrinho discorda. Não é debate. É afronta à hierarquia.

Então vem a frase-chantagem, dita com a segurança de quem se percebe impune: o agro sustenta o país; tudo o que a cidade come vem do agro. A chave épica está na atitude — no timbre de ameaça sob o verniz de “verdade”. O discurso funciona como violência moral: “se eu alimento, eu mando”.

E aqui o espetáculo ganha uma contra-luz material importante: quando o fazendeiro diz que o agro sustenta o país, ele não está enganado nos números — está mentindo na proporção. A agropecuária responde por algo em torno de 5% do PIB direto; mesmo contando toda a cadeia do agronegócio, chega a pouco menos de um quarto da economia. O país não vive do agro. Mas o agro sabe que a fome é mais rápida que a estatística.

O exagero (“sustenta o país”) não é erro retórico: é técnica de mando. A comida vira arma apontada contra a sociedade. E o espetáculo revela, com crueza, como o conservadorismo se apoia nessa deformação do masculino: a autoridade não se prova; ela se impõe.

A cena de Nossa Senhora Aparecida vindo num trator é de uma inteligência simbólica rara — porque ela condensa, sem discurso explicativo, dois séculos de pedagogia religiosa no Brasil. A imagem remete à iconografia popular de procissões e deslocamentos do sagrado sobre o trabalho e a terra, mas agora reatualizada pelo motor do agro: o trator como novo andor. A fé circula com a máquina.

Agropeça — Foto de divulgação (Lígia Jardim)
Foto: Lígia Jardim

E quando essa mesma figura se transforma numa cantora gospel de vestido de paetês colados, o espetáculo não está “criticando a fé” como vivência íntima do trabalhador — está expondo um mecanismo: a capacidade histórica de adaptar a linguagem do sagrado para governar afetos, organizar obediência, legitimar hierarquias. A mutação cênica não é caricatura; é diagnóstico da plasticidade do poder: muda a embalagem da crença, mantém-se a função social da crença quando capturada.

Nesse corte, Agropeça toca num ponto delicadíssimo: o trabalhador não é manipulado por falta de inteligência; é manipulado porque precisa de sentido, amparo, promessa — e o sistema sabe converter necessidade de sentido em disciplina. A fé, quando apropriada, vira instrumento. E a cena faz isso sem panfleto: faz pela imagem, pelo choque, pelo deslocamento.

Formalmente, a peça assume a lógica do rodeio e do show de variedades: quadros, números, alternância entre sedução e choque. Esse procedimento é inteligente porque espelha o próprio objeto — o agro não se vende como violência; vende-se como entretenimento, como canção, como festa.

O risco está justamente aí. Quando a montagem acumula camadas sem hierarquizá-las, flerta com o expressionismo: aquele teatro que aposta no impacto emocional como se intensidade fosse argumento. O problema não é estético; é político. Teatro expressionista comove — mas não necessariamente lucidifica. E uma peça sobre o agronegócio que deixa o espectador na fumaça dos agrotóxicos, em vez de lúcido pela análise, entrega ao sistema exatamente o que ele quer: emoção sem consciência.

Na maior parte do tempo, Agropeça escapa dessa armadilha. A fragmentação funciona como quebra-cabeça, não como caos — o espectador junta as peças e o quadro que emerge é mais perturbador do que qualquer discurso linear seria. Quando a montagem confia nesse procedimento, ela cumpre sua tarefa. O melhor de Agropeça é que a forma não pede adesão: pede leitura.

Há, porém, um segundo limite que vale nomear. Agropeça enxerga o agro pelo seu rosto mais visível — o fazendeiro patriarca, a bancada ruralista, o imaginário do Sítio. Mas o agronegócio brasileiro não é apenas esse coronel que ameaça Pedrinho. É um nó numa cadeia global: o Brasil é o maior exportador mundial de soja; na proteína animal, é líder mundial em exportação de carne de frango e está entre os maiores exportadores de carne bovina; e, no milho, alterna posições de liderança e vice-liderança no comércio internacional recente. Os donos reais desse sistema não estão todos em Brasília — estão também em fundos de investimento e tradings internacionais cujos nomes raramente aparecem no noticiário político. Ao focar na dominação interna, a montagem ilumina o rosto local do problema e deixa na sombra a abstração financeira que está acima do fazendeiro — e que, talvez, seja o adversário mais difícil de colocar em cena.

No fim, a imagem que fica é a síntese mais justa: se o agro é monocultura e desmatamento, o teatro precisa ser policultura — diversidade de formas, plantio de dúvidas, colheita de lucidez. Agropeça opera nessa chave: desmonta o mito infantil para revelar o latifúndio afetivo; troca o conforto da infância pela pergunta sobre mando; e captura o espírito do tempo para devolvê-lo como mercadoria dialética — não para consumo, mas para análise.

Agropeça — Foto de divulgação (Lígia Jardim)
Foto: Lígia Jardim

Em tempos de agrotóxicos e mentiras digitais, não basta retratar o mundo. É preciso mostrar que ele foi construído por mãos humanas — e que, por mãos humanas, pode ser desmontado e reconstruído. Se o Sítio está em chamas, a pergunta não é “que tristeza”: é quem segura o fósforo — e quem lucra com a cinza?

FICHA TÉCNICA

Uma criação do TEATRO DA VERTIGEM
Texto Marcelino Freire
Concepção e Direção Geral Antonio Araújo
Co-direção Eliana Monteiro
Coordenação Tecnica e Desenho de Luz Guilherme Bonfanti
Performers Andreas Mendes, James Turpin, Mawusi Tulani, Paulo Arcuri, Tenca Silva, Lola Fanucchi, Victor Salomão e Vinicius Meloni
Artistas Colaboradores Lucienne Guedes, Nicolas Gonzalez (1ª e 2ª Fase), Lee Taylor (1ª Fase)
Dramaturgismo Bruna Menezes
Assistente de Dramaturgismo João Crepschi
Conceito do Espaço Antonio Araújo
Cenografia Eliana Monteiro e William Zarella Junior
Sound Designer Associados Randal Juliano, Guilherme Ramos e Kleber Marques
Figurino Awa Guimarães
Visagismo Tiça Camargo
Direção Musical e Trilha Original Dan Maia
Direção vocal Lucia Gayotto
Videografismo Vic von Poser
Preparação corporal Castilho e Ricardo Januário
Preparação Corporal (1ª Fase) Fabrício Licursi
Direção de movimento Castilho
Assistente de Direção e Direção de Palco Gabriel Jenó
Assistentes de Iluminação e Programação Francisco Turbiani
Músicos Dan Maia e Ricardo Saldaña
Operação de luz Felipe Bonfante
Operador de Áudio Fernando Sampaio
Operadoras de Projeção Gabriel Theodoro
Operadores de Câmera André Voulgaris
Operadores de Canhão Seguidor Igor Beltrão e Giovanni Matarazzo
Microfonista Flávio Rodrigues
Montagem de Luz Felipe Bonfante, Igor Beltrão, Raphael Mota, Danilo Punk, Jhones Pereira, Tarsis Braga (Cabelo) e Lucas da Silva
Contrarregras Ayra Flores, Flávio Rodrigues e João Portela
Cenotécnico Zé Valdir Albuquerque
Montagem, Pintura e Tratamento de Cenografia Elástica SP Cenografia
Costureiras Francisca Rodrigues e Cleonice Barros Correa
Aulas de Laço Gui Sampaio
Crânios de Boi Vinicius Fragata
Tradutor Yorubá Mariana de Òsùmàrè
Estagiária de Direção Julie Douet Zingano
Fotos Lígia Jardim
Documentarista Padu Palmerio
Designer Gráfico Guilherme Luigi
Assessoria de Imprensa Canal Aberto
Estagiário de Produção Bento Carolina
Produção Corpo Rastreado – Leo Devitto e Gabi Gonçalves

SERVIÇO

AGROPEÇA uma criação do Teatro da Vertigem
Temporada De: 27/02 a 29/03/2026
Sessões Sextas e sábados às 20h, e domingos às 18h
Classificação 16 anos
Duração 90 minutos
Local Espaço Cultural Elza Soares (Alameda Eduardo Prado, 474, São Paulo, SP)
Ingressos R$ 40/ R$ 20 (meia) – Via Sympla
Informações à imprensa Canal Aberto Assessoria de Imprensa
Márcia Marques – 11 9 9126 0425 marcia@canalaberto.com.br
Daniele Valério – 11 9 8435 6614 daniele@canalaberto.com.br
www.canalaberto.com.br

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