Gota d’Água — No Tempo, no Sesc Consolação: a força que não cabe no mundo
Medeia é uma personagem de mais de dois mil e quatrocentos anos. Quando Eurípides a colocou em cena em 431 a.C., fez algo que distingue a tragédia que leva seu nome das demais do período: retirou o destino do centro da ação e colocou no lugar a vontade humana. Medeia não é arrastada pelos fios invisíveis do fado — ela escolhe. É essa escolha, radical e inegociável, que a torna incompatível com qualquer sistema que funcione pela domesticação da vontade em favor do cálculo. O capitalismo é apenas a forma mais recente desse sistema. Chico Buarque e Paulo Pontes entenderam isso em 1975 e fizeram de Joana, moradora da Vila do Meio-Dia, não uma atualização de Medeia, mas sua continuidade. Os valores estão preservados no deslocamento de tempo porque o problema é o mesmo: o que um sistema de poder faz com uma pessoa que não se deixa dobrar.
Vinte anos após a montagem que lhe rendeu o Prêmio Shell de melhor atriz, Georgette Fadel retorna a Joana em Gota d’Água — No Tempo, em cartaz no Teatro Anchieta do Sesc Consolação. O espetáculo é uma realização da Cia. Coisas Nossas de Teatro, de Cristiano Tomiossi, em parceria com a Colmeia Produções, de Fadel, que assume a direção geral. Tomiossi está na codireção e em cena como Jasão — a mesma dupla que construiu e destruiu o casal em 2006 volta ao mesmo material com outros corpos e outra consciência. Não para repetir o que foi, mas para entender o que o tempo fez com as perguntas que o texto faz.

A composição de Georgette é a coluna vertebral do espetáculo e merece ser descrita com precisão. Não se trata de uma construção psicológica — Joana não é uma mulher sofrendo, não é uma mãe em crise, não é uma vítima buscando compaixão. É uma força em colisão com um mundo que não tem lugar para ela, e Georgette demonstra isso no corpo sem nunca recorrer ao sentimentalismo. O gesto mais revelador está no andar: os pés entrelaçados, o passo firme e ao mesmo tempo confuso, uma imagem dialética que carrega simultaneamente a força e o impedimento. O espectador vê os dois ao mesmo tempo, sem que o texto precise explicar nenhum dos dois. É o gestus no sentido mais rigoroso — não ilustração da psicologia da personagem, mas demonstração das forças sociais que a constituem e limitam num único movimento físico.
Há uma progressão dramatúrgica no corpo de Georgette ao longo das três horas do espetáculo. No início, Joana está destruída, sem estratégia, sem direção clara — a força existe mas não encontra saída. Gradualmente, ela vai entendendo onde pisa, e com esse entendimento emerge não só a força que sempre esteve lá, mas uma inteligência que, em condições normais, poderia enfrentar o mundo que a aflige. O momento mais preciso dessa progressão é a cena do pão envenenado: a mulher dos gestos abertos e expostos de repente se fecha, se reserva, esconde as mãos. É a única vez em que Joana calcula — e calcula para destruir, não para sobreviver. A atriz registra essa virada com economia absoluta. É tecnicamente o momento mais difícil do espetáculo e Georgette o sustenta sem sublinhar.
Joana não é mãe, não é amante, não é militante — é uma pessoa inteira num mundo que só aceita pessoas pela metade. Ela vem de uma constituição humana que antecede e recusa qualquer sistema que coloque o cálculo acima da determinação. Não foi domesticada porque não há, no texto e na composição da atriz, nenhum momento em que ela sequer considere a domesticação como possibilidade. É isso que a faz “insensata” aos olhos dos outros personagens — e é isso que a torna trágica, no sentido grego do termo: não falha moral, mas incompatibilidade estrutural com o mundo que a cerca.

Jasão, na composição de Cristiano Tomiossi, é o avesso preciso de Joana: não é vilão, é adaptado. O tipo humano que o capitalismo produz em série, o colaboracionista de boa-fé que se convenceu de que suas escolhas são razoáveis, até generosas. Ele não abandona Joana por crueldade — abandona por cálculo, e o cálculo lhe parece natural. A ambiguidade que Tomiossi sustenta é necessária para que o espetáculo funcione: um Jasão claramente mau tornaria Joana vítima, e ela não é vítima. É derrotada, o que é diferente.
A Vila do Meio-Dia não abandona Joana por inimizade. Todos a respeitam, muitos a estimam. O que Clionte oferece não é sedução ideológica — são vantagens práticas, concretas, imediatas. E quando essas vantagens aparecem, a amizade fica em segundo lugar. Não por maldade, mas por pragmatismo de quem sempre viveu na escassez e aprendeu a resolver o que está na frente. É a lógica do capital operando de dentro da própria classe oprimida: fragmenta a solidariedade sem precisar destruí-la abertamente, apenas oferece o suficiente para que cada um calcule por si. Os moradores da Vila não traem Joana com consciência plena do que fazem — e é exatamente isso que o texto de Chico e Pontes não perdoa. A submissão que não se reconhece como submissão é a mais difícil de combater.
Egeu é o único que enxerga o tabuleiro inteiro. Técnico da oficina, liderança comunitária, ele compreende o mecanismo que move as peças e sabe onde cada uma vai parar. Mas compreender não é o mesmo que poder mudar. Seu poder é moral — e poder moral sem consciência coletiva organizada é impotência bem-intencionada. Egeu gostaria que as peças tivessem vontade própria para se mover juntas, que o entendimento da situação fosse compartilhado. Esse entendimento se esboça, mas não se realiza. Ele é o outro insensato do espetáculo — mas sua insensatez tem margem de ação que Joana não tem. Pode lutar. Ela não pode. Não da mesma forma, não com as mesmas ferramentas, não com o mesmo custo.

Essa assimetria não é contingência dramática. É a própria estrutura que o texto expõe. Em Gota d’Água, o patriarcado atravessa toda a sociedade, dos remediados à comunidade, regulando quem pode agir, quem pode falar e quem já nasce desautorizada. A peça não precisa transformar isso em tese explícita: sua engrenagem dramatúrgica o demonstra. De Eurípides a Chico Buarque e Paulo Pontes, mais de vinte e cinco séculos não bastaram para romper a aliança entre dominação masculina e desigualdade social. À mulher pobre raramente é concedido o direito pleno à palavra. Sua origem a desautoriza; seu gênero a constrange. Joana não se adapta à linguagem dos dominantes, não se traduz para ser aceita, não negocia pertencimento. Sabe de onde fala — e é essa consciência que dá à sua tragédia densidade histórica.
O espetáculo acontece em arena, com luz predominantemente branca que em boa parte do tempo ilumina também a plateia. Os músicos estão na primeira fileira, tocando ao vivo. As roupas são contemporâneas. Nada disso é ornamento — são escolhas que recusam a ilusão como linguagem e colocam o espectador visivelmente dentro do mesmo espaço que a ação. A familiaridade não produz identificação, produz reconhecimento crítico. Quando Joana em determinado momento anda pela área do público, não há catarse: há o reconhecimento da mulher próxima a nós, que está no seu lugar, que pertence ao mesmo espaço que ocupamos. A música não ilustra, participa. A luz não cria atmosfera, expõe.
O infanticídio é narrado e sentido, as crianças apenas citadas. É a escolha certa — qualquer tentativa de representação reduziria o insuportável a imagem, e o insuportável precisa permanecer insuportável. Georgette sustenta o peso disso no corpo sem as crianças em cena, o que é a prova mais exigente de tudo o que a composição construiu até ali.

Ao final do espetáculo, antes que o aplauso se encerre, Georgette toma a palavra. Não para agradecer — para defender. O teatro de grupo paulistano, forma de produção que não nasceu por acaso mas por luta, que construiu a duras penas linguagem, método, enraizamento social e visão crítica. Uma cidade que deixa de produzir sua própria expressão teatral torna-se mais vulnerável à colonização simbólica, à alienação, ao apagamento de si mesma. O teatro de grupo cumpre há décadas o papel de espelho e de memória crítica, permitindo que São Paulo enfrente seus traumas e reconheça suas próprias contradições. Essa forma de produção tem sofrido ataques sistemáticos, sendo o mais visível a destruição de espaços. Georgette sabe disso e diz. O gesto é coerente com tudo que aconteceu nas três horas anteriores: Joana também não se calou quando poderia, também defendeu o que precisava ser defendido mesmo sem garantia de resultado. O espetáculo termina onde começou — na recusa de quem não engole.
Ficha Técnica
| Texto | Chico Buarque e Paulo Pontes |
| Direção | Georgette Fadel |
| Codireção | Cristiano Tomiossi |
| Direção musical | Marco França |
| Codireção musical | Alê Moura |
| Elenco | Cristiano Tomiossi, Débora Veneziani, Georgette Fadel, Joaz Campos, José Eduardo Rennó, Laruama Alves, Leandro Vieira, Lilian Regina, Lívia Camargo e Mawusi Tulani |
| Músicos | Alê Moura, Flávio Rubens, Ildo Silva e Renato Passarinho |
| Direção de arte e iluminação | Felipe Tchaça |
| Direção de movimento de coros cênicos | Kleber Montanheiro |
| Direção de produção | Cristiano Tomiossi e Vanda Dantas |
| Direção de palco e contrarregra | Nilton Araújo |
| Cenotécnico | Zito Rodrigues |
| Assistente de direção | José Eduardo Rennó |
| Assistente de direção de movimento | Débora Veneziani |
| Assistente de direção de arte | Vanda Dantas |
| Assistente de produção | Gaê e Giovana Carneiro |
| Som | JP Hecht |
| Assistente e operação de luz | Felipe Fly |
| Identidade visual | Sato do Brasil |
| Fotógrafa | Barbara Campos |
| Filmagem | Felipe Corvello |
| Costureira | Dhenyse Iwone |
| Gestão de projeto | Cia. Coisas Nossas de Teatro e Colmeia Produções |
| Realização | Sesc São Paulo |
| Agradecimentos | A Xango: Kaô Kabecilê, Abel Marques, Adelaide Tomiossi, Ana Paula Minehira, Antonia Mattos, Athena Evangelista Carvalho, Bete Rodrigues, Casa Farofa, César Kawamura, Cia. Livre, Claudia Schapira, Cleuza Amaro da Silva Barbosa, Cris Cunha, Daniela Cabadas, Deivid Miranda, Eliane Pereira, Fábio Meira, Flane, Francisco das Dores Vieira, Giseli Malafronte, Isa Camargo, Inima Produções, João Alves, Karina de Amorim Silva, Luciana Alves da Silva, Luciana Borghi, Luiz Cláudio Camargo, Maria Aparecida Vieira Silva, Mica Matos, Nina Ayhu, Pedro Pita, Piero Abner, Renata Evangelista, Sonia Lúcia Vieira (em memória), Teatro do Incêndio, Tiago Weber, Thais Taverna, TV Cultura e equipe |
| Agradecimentos especiais | Adriana Aragão, Alan Gonçalves, Alessandro Penezzi, Alexandre Krug, Alexandre Santo, André Capuano, Cibeli Bissoli, Cibeli Forjaz, Daniela Duarte, Flavia Melman (Xaxa), Heron Coelho, Juliana Osmondes, Juliana Saad, Kil Abreu, Laura Fajngold, Luciana Paes, Luís Aranha, Luiz Damasceno, Luís Mármora, Mariana Senne, Marat Descartes, Milton Morales, Miró Parma, Otávio Dantas e Richard Oliveira |


