Teatro

Pés-Coração e a cidade reduzida a coordenada -Coletivo Labirinto, no Sesc Pompeia

Em Pés-Coração, o público é convidado a subir ao palco e percorrer, em fila, duas pistas circulares paralelas. A imagem projetada desse deslocamento coletivo desenha na tela o símbolo do infinito, transformando a caminhada partilhada em figura visual antes que em argumento. Há uma aposta clara nessa abertura: a experiência precede a explicação. Não se trata de ilustrar uma tese sobre deslocamento — trata-se de fazer o espectador habitá-lo com o próprio corpo, ainda que numa versão miniaturizada e controlada, a poucos metros do cotidiano da cidade.

Esse dispositivo tem consequências que valem examinar. Ao retirar a plateia da posição estática de observadora e inseri-la no fluxo da cena, o espetáculo embaralha as categorias habituais de recepção. Quem caminha não está simplesmente participando — está sendo transformado em imagem, em dado compositivo, em parte do desenho que o espetáculo projeta de si mesmo. Há algo de vertiginoso nessa inversão: o espectador olha para o outro que caminha à sua frente e percebe que é também olhado, que seu próprio corpo compõe a cena para quem vem atrás. A individualidade se dissolve num fluxo que parece não ter origem nem destino claros — exatamente o que o infinito, como figura, enuncia. Se o dispositivo nem sempre sustenta essa promessa ao longo de toda a duração do espetáculo, o gesto inaugural é preciso.

Cena de Pés-Coração com três intérpretes correndo pelas pistas do palco.
Foto: Tomas Franco

A presença de Allycia Machaca, artista convidada, abre o espetáculo com um canto que remete a matrizes indígenas latino-americanas. A voz, antes de qualquer palavra, instala um campo de ancestralidade e travessia. Para quem chegou sem saber exatamente o que viria, o efeito é de deslocamento temporal: de repente, o palco do Sesc Pompeia comunica com rotas que precedem a cidade, com percursos que a história sul-americana fez a pé. Machaca retorna em cenas pontuais ao longo do espetáculo — em falas que situam sua origem boliviana e interrogam a relação entre identidade, movimento e fronteira — e sua presença funciona como um ponto de ancoragem concreta dentro de uma reflexão que, por vezes, tende à generalização.

O interesse pelo povo Rarámuri, do norte do México, constitui o ponto de partida declarado da pesquisa do Coletivo Labirinto. Os Rarámuri são conhecidos por percorrer longas distâncias a pé — e por vencer maratonas internacionais contrariando todas as expectativas de preparação convencional. Esse dado, que poderia funcionar como curiosidade etnográfica ou pretexto exótico, é deslocado pelo espetáculo para outra pergunta: o que a corrida diz sobre quem corre? E mais especificamente: o que ela diz sobre os latino-americanos, sobre essa condição de estar permanentemente no corre, no deslocamento, na urgência de atravessar?

Cena de Pés-Coração com projeção ao fundo e intérprete diante de um carrinho em cena.
Foto: Tomas Franco

A hipótese que o espetáculo formula — sem nunca fixá-la em tese — é que a corrida dos Rarámuri pode ser lida também como resposta ao processo colonizatório que os espanhóis impuseram ao México. Correr, nesse quadro, não é apenas façanha física nem prática espiritual: é uma forma de existir sob pressão histórica, de manter o corpo em movimento como estratégia de sobrevivência. Quando o espetáculo propõe a caminhada coletiva no palco e a corrida como imagem recorrente, não está celebrando o esforço físico — está perguntando o que acontece com uma civilização que aprendeu a se mover assim.

A insistência do espetáculo em corpos que andam, correm, giram e retornam também convoca uma percepção histórica: desnaturalizamos o caminhar. Aquilo que já foi necessidade elementar de transporte, comunicação e sobrevivência perdeu centralidade diante da velocidade técnica do mundo e reaparece, não raro, como atividade prescrita, exercício a cumprir, meta abstrata. O deslocamento permanece, mas apartado de sua função original. Talvez venha daí parte do estranhamento que a cena produz.

Cena de Pés-Coração com intérprete caminhando pelas pistas iluminadas e imagens projetadas ao fundo.
Foto: Tomas Franco

O motivo do pin, enunciado verbalmente no início e retomado no desfecho, quando um ator surge em cena como a própria figura gráfica de localização — com um balão vermelho sobre a cabeça —, oferece uma das imagens mais sugestivas do espetáculo. Ali, o lugar deixa de aparecer como experiência concreta, histórica ou afetiva e passa a se apresentar como marcação abstrata numa interface. Esquinas, endereços e trajetos, que durante muito tempo implicaram memória, uso e relação vivida com a cidade, tendem a ser reduzidos a ponto assinalado na tela. O corpo, então, já não é apenas o que percorre: torna-se também aquilo que localiza.

Essa imagem faz pensar numa mutação mais ampla do deslocamento contemporâneo. À medida que aplicativos e sistemas de navegação organizam nossos trajetos, saber onde se está ou para onde se vai já não depende necessariamente de conhecer os caminhos, reconhecer o entorno ou incorporar a cidade ao corpo. Seguem-se rotas; obedece-se a instruções; atravessam-se bairros sem que o percurso se converta em experiência. O transporte moderno ganha velocidade, mas frequentemente perde espessura. Não é por acaso que motoristas guiados por aplicativo muitas vezes seguem o caminho mais do que o conhecem; os passageiros, então, menos ainda. Nesse sentido, o pin de Pés-Coração concentra uma pergunta decisiva: o que acontece com nossa relação com o espaço quando o lugar se reduz a coordenada e o percurso já não produz intimidade com o mundo atravessado?

Ator caracterizado como um pin de mapa com figurino vermelho e balão vermelho sobre a cabeça em Pés-Coração.
Foto: Tomas Franco

A dramaturgia de Abel Xavier responde a essa pergunta menos por personagens e conflitos do que por princípios de composição. Pés-Coração privilegia o fluxo em vez da fixação, a circulação em vez da confrontação. Há vozes, há corpos, há situações que se abrem e não se fecham — e isso é coerente com a poética que o grupo explicita: o trabalho se quer meio, revezamento, inacabamento, recusa à ideia do ponto de chegada como valor supremo. Para um espectador habituado a dramaturgias que organizam a experiência em torno de conflitos delimitados e arcos reconhecíveis, esse regime pode gerar uma sensação de incompletude. Mas é possível que essa incompletude seja precisamente o que o espetáculo tem a dizer: que o corre latino-americano não tem resolução dramatúrgica, que a América Latina não chegou ainda — e talvez não chegue — ao seu ponto de repouso.

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Ficha Técnica

Pesquisa e Idealização
Coletivo Labirinto
Criadores
Abel Xavier, Carol Vidotti, Emilene Gutierrez, Wallyson Mota e Luiz Fernando Marques Lubi
Direção
Luiz Fernando Marques Lubi
Dramaturgia
Abel Xavier
Atuação
Carol Vidotti, Emilene Gutierrez e Wallyson Mota
Artista convidada
Allycia Machaca
Direção Musical e Trilha Original
Caetano Ribeiro
Músicos em cena
Caetano Ribeiro (guitarra, violão e voz) e Leandro Vieira (percussão e eletrônicos)
Canto
Allycia Machaca
Concepção audiovisual
Luiz Fernando Marques Lubi e Sol Faganello
Mapping
Sol Faganello, Letícia Pinto e GIVVA
Operação de vídeo
Sol Faganello e Letícia Pinto
Operação de câmera
Sol Faganello e Marcelo Faganello
Técnico montagem audiovisual
GIVVA
Edição vídeo Retiro
Tomás Franco
Atuantes
Alexandra Tavares, Camila Cohen, Daniela Alves, João Pedro Ribeiro, Lucas Bernardo, LuzMa Moreira, Paula Petreca, Renan Coelho e Sebastian Santamaria
Coreografia
Paula Petreca
Preparação de atores (Cena Passistas)
Rhena de Faria
Cenário
Luiz Fernando Marques Lubi
Cenotécnico
Zé Valdir
Instalação de Led
Rogério Cândido
Figurino
Emilene Gutierrez e Allycia Machaca
Visagismo
Fábia Mirassos
Adereços
Allycia Machaca
Fantasias Carnaval
Sérgio Cardoso Lopes
Desenho e operação de luz
Matheus Brant
Técnico e Operador de som
Tomé de Souza
Coordenação de Ensaio
Madu Arakaki
Fisioterapia
Leandro Faria
Pesquisa e Condução Retiro Artístico
Elias Cohen
Apoio Teórico
Gina Monge Aguilar
Mesas de Reflexão
Gina Monge Aguilar, Salloma Salomão, Monica Rodriguez Ulo, Paula Petreca, Paula Narvaez, Elias Cohen, Antonia Moreira, Andrezza Rodrigues e OWERÁ
Fotos
Tomás Franco
Assessoria de Imprensa
Pombo Correio
Redes Sociais
Jorge Ferreira e Hayla Cavalcanti
Estagiários Produção
Bento Carolina e Mariana Ruiz
Produção
Corpo Rastreado – Leo Devitto

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