Pés-Coração e a cidade reduzida a coordenada -Coletivo Labirinto, no Sesc Pompeia
Em Pés-Coração, o público é convidado a subir ao palco e percorrer, em fila, duas pistas circulares paralelas. A imagem projetada desse deslocamento coletivo desenha na tela o símbolo do infinito, transformando a caminhada partilhada em figura visual antes que em argumento. Há uma aposta clara nessa abertura: a experiência precede a explicação. Não se trata de ilustrar uma tese sobre deslocamento — trata-se de fazer o espectador habitá-lo com o próprio corpo, ainda que numa versão miniaturizada e controlada, a poucos metros do cotidiano da cidade.
Esse dispositivo tem consequências que valem examinar. Ao retirar a plateia da posição estática de observadora e inseri-la no fluxo da cena, o espetáculo embaralha as categorias habituais de recepção. Quem caminha não está simplesmente participando — está sendo transformado em imagem, em dado compositivo, em parte do desenho que o espetáculo projeta de si mesmo. Há algo de vertiginoso nessa inversão: o espectador olha para o outro que caminha à sua frente e percebe que é também olhado, que seu próprio corpo compõe a cena para quem vem atrás. A individualidade se dissolve num fluxo que parece não ter origem nem destino claros — exatamente o que o infinito, como figura, enuncia. Se o dispositivo nem sempre sustenta essa promessa ao longo de toda a duração do espetáculo, o gesto inaugural é preciso.

A presença de Allycia Machaca, artista convidada, abre o espetáculo com um canto que remete a matrizes indígenas latino-americanas. A voz, antes de qualquer palavra, instala um campo de ancestralidade e travessia. Para quem chegou sem saber exatamente o que viria, o efeito é de deslocamento temporal: de repente, o palco do Sesc Pompeia comunica com rotas que precedem a cidade, com percursos que a história sul-americana fez a pé. Machaca retorna em cenas pontuais ao longo do espetáculo — em falas que situam sua origem boliviana e interrogam a relação entre identidade, movimento e fronteira — e sua presença funciona como um ponto de ancoragem concreta dentro de uma reflexão que, por vezes, tende à generalização.
O interesse pelo povo Rarámuri, do norte do México, constitui o ponto de partida declarado da pesquisa do Coletivo Labirinto. Os Rarámuri são conhecidos por percorrer longas distâncias a pé — e por vencer maratonas internacionais contrariando todas as expectativas de preparação convencional. Esse dado, que poderia funcionar como curiosidade etnográfica ou pretexto exótico, é deslocado pelo espetáculo para outra pergunta: o que a corrida diz sobre quem corre? E mais especificamente: o que ela diz sobre os latino-americanos, sobre essa condição de estar permanentemente no corre, no deslocamento, na urgência de atravessar?

A hipótese que o espetáculo formula — sem nunca fixá-la em tese — é que a corrida dos Rarámuri pode ser lida também como resposta ao processo colonizatório que os espanhóis impuseram ao México. Correr, nesse quadro, não é apenas façanha física nem prática espiritual: é uma forma de existir sob pressão histórica, de manter o corpo em movimento como estratégia de sobrevivência. Quando o espetáculo propõe a caminhada coletiva no palco e a corrida como imagem recorrente, não está celebrando o esforço físico — está perguntando o que acontece com uma civilização que aprendeu a se mover assim.
A insistência do espetáculo em corpos que andam, correm, giram e retornam também convoca uma percepção histórica: desnaturalizamos o caminhar. Aquilo que já foi necessidade elementar de transporte, comunicação e sobrevivência perdeu centralidade diante da velocidade técnica do mundo e reaparece, não raro, como atividade prescrita, exercício a cumprir, meta abstrata. O deslocamento permanece, mas apartado de sua função original. Talvez venha daí parte do estranhamento que a cena produz.

O motivo do pin, enunciado verbalmente no início e retomado no desfecho, quando um ator surge em cena como a própria figura gráfica de localização — com um balão vermelho sobre a cabeça —, oferece uma das imagens mais sugestivas do espetáculo. Ali, o lugar deixa de aparecer como experiência concreta, histórica ou afetiva e passa a se apresentar como marcação abstrata numa interface. Esquinas, endereços e trajetos, que durante muito tempo implicaram memória, uso e relação vivida com a cidade, tendem a ser reduzidos a ponto assinalado na tela. O corpo, então, já não é apenas o que percorre: torna-se também aquilo que localiza.
Essa imagem faz pensar numa mutação mais ampla do deslocamento contemporâneo. À medida que aplicativos e sistemas de navegação organizam nossos trajetos, saber onde se está ou para onde se vai já não depende necessariamente de conhecer os caminhos, reconhecer o entorno ou incorporar a cidade ao corpo. Seguem-se rotas; obedece-se a instruções; atravessam-se bairros sem que o percurso se converta em experiência. O transporte moderno ganha velocidade, mas frequentemente perde espessura. Não é por acaso que motoristas guiados por aplicativo muitas vezes seguem o caminho mais do que o conhecem; os passageiros, então, menos ainda. Nesse sentido, o pin de Pés-Coração concentra uma pergunta decisiva: o que acontece com nossa relação com o espaço quando o lugar se reduz a coordenada e o percurso já não produz intimidade com o mundo atravessado?

A dramaturgia de Abel Xavier responde a essa pergunta menos por personagens e conflitos do que por princípios de composição. Pés-Coração privilegia o fluxo em vez da fixação, a circulação em vez da confrontação. Há vozes, há corpos, há situações que se abrem e não se fecham — e isso é coerente com a poética que o grupo explicita: o trabalho se quer meio, revezamento, inacabamento, recusa à ideia do ponto de chegada como valor supremo. Para um espectador habituado a dramaturgias que organizam a experiência em torno de conflitos delimitados e arcos reconhecíveis, esse regime pode gerar uma sensação de incompletude. Mas é possível que essa incompletude seja precisamente o que o espetáculo tem a dizer: que o corre latino-americano não tem resolução dramatúrgica, que a América Latina não chegou ainda — e talvez não chegue — ao seu ponto de repouso.
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