A auditoria no lugar da justiça: compliance, vigilância e psicopatia corporativa em Nós, os Justos
A Companhia Colateral, no Teatro Itália, transforma uma sindicância corporativa em ensaio sobre a claustrofobia social de um mundo que substituiu a verdade pela conformidade dos discursos.

A sala é real. Mesa, cadeiras de escritório, janela — nenhuma estilização, nenhuma metáfora visual antecipada. Dois homens. Uma sindicância em curso. É nesse espaço sem ambiguidade cenográfica que Nós, os Justos, texto e direção de Kiko Rieser, instala sua armadilha. As duas mulheres entram depois, uma a uma, pela lógica funcional do processo: cada convocação traz um novo depoimento, uma nova camada de versão. A partir daí, há algo naquele espaço que não se explica apenas pela dramaturgia — uma tensão que o espectador sente antes de conseguir nomear. A vigilância, aqui, não é tema. É arquitetura.
É precisamente essa arquitetura que o jurista Joel Bakan identificou como estrutura da corporação moderna: não uma entidade malévola, mas um sistema que, se submetido aos critérios diagnósticos do DSM, produziria o perfil de um psicopata funcional. Não por maldade, mas por obrigação legal — a corporação é legalmente compelida a maximizar o retorno aos acionistas, e qualquer consideração moral que interfira nisso pode ser juridicamente contestada. A ficção jurídica que tornou isso possível nasceu após a Guerra Civil americana, quando advogados de empresas passaram a sustentar que seus clientes deveriam ser enquadrados como “pessoas” para fins constitucionais — e ganharam. A 14ª Emenda, concebida para garantir que seres humanos libertos da escravidão jamais voltassem a ser tratados como coisa, tornou-se o instrumento de uma outra ficção: a corporação como pessoa perante a lei.
A partir dessa questão, as empresas passaram a tentar reconfigurar essa imagem por meio de programas de compliance e da adequação de suas práticas aos valores contemporâneos — incorporando pautas que, há trinta anos, sequer seriam objeto de discussão. A peça Nós, os Justos ilumina justamente essa tensão ao mostrar como qualquer questão é relativizada e como os mecanismos de “justiça corporativa” são manipulados em proveito próprio, sobretudo em um contexto de hiperexposição e temor ao cancelamento.
Em uma grande empresa, rumores sobre a conduta de um funcionário começam a circular pelos corredores. O que os alimenta não é uma denúncia formal, mas algo mais difuso: um coro invisível de colegas — chamado ironicamente de “a manada” — que comenta, pressiona, vaza informações e muda de lado conforme a conveniência, sem jamais aparecer em cena. Diante dessa pressão, a direção instaura uma sindicância. O processo, porém, revela-se tudo menos objetivo: cada depoimento carrega ambiguidades, silêncios e interesses ocultos. As versões não se contradizem frontalmente, mas divergem em intenções, interpretações e motivações. À medida que a investigação avança, torna-se cada vez mais difícil separar fatos de narrativas, convicções de conveniências — e todos os envolvidos são tragados por uma bola de neve de consequências imprevisíveis.

Essa “espiral de normas” termina por produzir um fenômeno de erosão da subjetividade. Em Oleanna — peça de David Mamet de 1992, em que um professor e uma aluna travam uma guerra de versões em torno de uma acusação de assédio — o embate ainda preserva traços de uma disputa entre subjetividades em conflito. Em Nós, os Justos, a sensação é de que as personagens já foram mastigadas pela engrenagem antes mesmo da primeira fala. A encenação estrutura o palco como um tribunal alegórico em que os quatro atores encarnam, respectivamente, as funções de juiz, acusação, defesa e testemunha. O personagem que conduz a sindicância — obrigado a seguir o protocolo corporativo à risca — revela-se progressivamente capturado pelo próprio sistema que deveria operar. O controle cênico desse quarteto revela que, na ditadura do compliance, não se busca a verdade dos fatos, mas a conformidade dos discursos. A encenação parece sugerir que, sob a vigilância constante e a gravação de cada suspiro, a espontaneidade torna-se um risco jurídico. O que emerge é um teatro de máscaras corporativas onde o “erro” não é uma falha moral, mas um desvio técnico de um código de ética que, por ser onipresente, torna-se impossível de cumprir integralmente.
A indefinição da corporação não enfraquece a peça; ao contrário, radicaliza seu alcance. Não sabemos o que a empresa produz, porque isso pouco importa. O que está em cena não é um ramo de atividade, mas uma forma de vida. Tampouco sabemos quase nada dos funcionários fora do expediente: eles surgem reduzidos à própria função, como abelhas numa colmeia administrativa. Nesse universo regido por protocolos, métricas e zonas de risco reputacional, o humano aparece apenas como ruído. E talvez esteja aí uma das imagens mais duras do espetáculo: o lugar onde se passa a maior parte da vida útil tornou-se justamente aquele em que menos se pode existir como pessoa.
Assim, o espetáculo deixa de ser apenas sobre uma sindicância interna para se tornar um ensaio sobre a claustrofobia social: um mundo onde a justiça foi substituída pela auditoria e o luto pela gestão de danos.

Ficha técnica
| Texto e direção | Kiko Rieser |
| Elenco | Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú |
| Assistência de direção | Letícia Calvosa |
| Stand-in | Natália Moço |
| Cenografia | Bruno Anselmo |
| Desenho de luz | Rodrigo Palmieri |
| Figurino | Marichilene Artisevskis |
| Trilha sonora original | Marcelo Pellegrini |
| Preparação corporal | Bruna Longo |
| Consultoria de queda e dublê | Aline Abovsky |
| Operador de som e luz | Rodrigo Palmieri |
| Fotografia | Ronaldo Gutierrez |
| Designer gráfico | Lucas Sancho |
| Produção | Rieser Produções e Rodri Produções |
| Direção de produção | Jessica Rodrigues |
| Produção executiva | Diego Andrade e Julia Terron |
| Realização | Companhia Colateral |
| Temporada | 6 de março a 26 de abril de 2026 |
| Sessões | Sextas e sábados às 20h, domingos às 19h |
| Duração | 90 minutos |
| Ingressos | R$ 90 (inteira) / R$ 45 (meia) |
| Local | Teatro Itália — Av. Ipiranga, 344, Centro, São Paulo |
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